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 O Artista - João Marcos Oliveira

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João Marcos Oliveira

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MensagemAssunto: O Artista - João Marcos Oliveira   Qui Jun 26, 2014 5:45 pm




A arte e a obsessão podem se unir em um único prol, dando a um simples crime, o título de obra, de algo grandioso e inominável. A adoração sempre trouxe consigo a beleza de algo puro, intocável... mas não é o que convém a esta história.

***

A salva de palmas que ressoava em seus ouvidos dava-a a glória de um trabalho bem feito. O Lago dos Cisnes era seu triunfo, o auge de sua carreira. Ao levantar o dorso, recuperando-se de seu agradecimento, junta de todos os bailarinos, fitou-o no meio da multidão. O sorriso dele era radiante, assim como o sentimento que ela tinha de dever cumprido e, após virar-se, sentia que aquilo era verdadeiro, que ainda estava em sua face. Os olhos do sujeito, porém, evidenciavam suas nada boas pretensões.

Veio visitá-la no camarim acompanhado de um buquê de flores e de elogios que inflavam seu ego profissional. Se era a melhor? Deixava que respondessem por ela, afinal, fazia parte de seu trabalho ser bajulada por fãs. Um deles, o número um, encontrava-se ali ao seu lado, a lhe prestigiar.

Via-o como um amigo e tinha plena ciência dos sentimentos dele por sua pessoa, mas ignorava-o com vigor. Ela não poderia dizer que fosse belo, afinal, lembrava-lhe muito uma versão jovem de Woody Allen, achando engraçado imaginá-lo como um par romântico.

Ele era espirituoso, poético e a apreciava. Isto não era suficiente. O homem que escolhera para viver ao seu lado satisfazia-a de uma forma que o outro não era capaz. Fazia-a gritar de prazer e era bom o bastante para suprir seus desejos carnais e materiais. Entretanto, seu amado não a dava o devido valor quando se tratava de atenção. Não prestigiava seu trabalho, não a elogiava pelo que se prestava a fazer, e nem fora a sua apresentação naquele dia dos namorados, mas ela não se importava, afinal, não deveria exigir muito da vida. Estava bem, obrigada. Ela pensava que poderia acreditar no príncipe encantado e morrer virgem e sozinha, mas escolheu suas prioridades por fim.

No camarim, sentada em seu trono de beleza, frente ao espelho, decidiu não ignorá-lo desta vez e cedeu às tentativas insistentes de seu admirador para comemorar o sucesso. Ela merecia, finalmente, relaxar um pouco, após tanto esforço. Seus pés corroíam cada centímetro de seu corpo com dores e ela já se perguntava quando fora a última vez que tinha se divertido por uma noite. Não havia nada a perder.

Correram as ruas frias daquela cidade calma e ele preenchia-a com ânimo, piadas, críticas às amadoras do espetáculo, e enaltecia sua apresentação como algo divino, uma dádiva para a humanidade. Poderia ouvi-lo falar sobre sua pessoa pela eternidade e nunca se cansaria da maneira polida que seus comentários tinham a seu respeito.

Logo jantaram em um restaurante próximo. Era requintado, digno de estrelas como ela, e muitos a reconheceram acenando ou sorrindo de suas mesas à direção em que estava. “Como é bom ser quista!”, ela pensava sorridente. Os pratos de porcelana decorativos mostravam-na o reflexo de como era bela e rica, e ela sabia que, por pertencer à elite, causava inveja nas pessoas.

A refeição esplêndida saciou-a um pouco e ela pode perceber que o álcool do vinho já estava correndo por suas veias, dando-a uma visão embriagada e um leve mal estar. Não demorou para que logo, após ele pagar a conta, saíssem e as sensações piorassem gradativamente.

Pegaram um táxi. Nele se sentaram e aguardaram a viagem para suas casas. No meio do caminho, entretanto, os efeitos se tornaram mais fortes e ela apagou, caindo desacordada ao colo do rapaz.

O que se passou a seguir, como era de se esperar, não sucede um final feliz.

***

Ao abrir os olhos, foi tomada por uma forte dor de cabeça, aliada a um enjoo que lhe revirava o estômago. Poderia continuar com a dor e voltar a dormir se não tivesse notado o que a fizera gritar, expelindo de seu corpo todo o horror e o medo que, como seres humanos, somos capazes de sentir.

Estava nua e correntes prendiam-na a cama pelas mãos e pés. Ela poderia sentir que estava em um de seus piores pesadelos, fosse este real ou fruto de uma mente insana. O pesadelo que tanto ironizou, se concretizara para sua tristeza. Ao seu lado, na cama imunda, fumando um fétido cigarro, estava ele, seu admirador, nu e com o conhecido sorriso na face. Paralisada, pode ouvir uma gargalhada acompanhada de um olhar sádico por suas expressões. Ele se divertia com o terror da outra.

Ela se perguntou o que acontecera atônita, tentando se soltar das correntes, chacoalhando-se na cama entre gemidos.

“Preciso mesmo dizer?”, a voz do homem cortou seus soluços de imediato e, prostrando-se sobre a moça, encostou seu corpo junto ao dela, compartilhando de seu suor e dos esbaforidos da fumaça que atingiam a face da mulher.

“A gente fez sexo”, ele disse numa voz neutra, mas sua expressão insensível não durou muito, pois logo estava rindo novamente. A mulher estava prestes a vomitar com a revelação, com o estado em que se encontrava e a junção de todas as suas sensações. “Você acha mesmo que ia deixar que fosse sem antes me aproveitar?”, ele ria incontrolavelmente, até tossindo com o fumo à boca.

Ela gritava histérica. Havia um pedido de clemência em seu timbre, pois sabia que estava nas mãos do inimigo.

Com a mão sobre a face da mulher, analisou-a como um cirurgião. “Um rosto tão bonito como o seu... Será uma pena perdê-lo”.

Perguntando-se o motivo de tudo aquilo, ela berrava aos prantos. Lágrimas desceram de seu rosto, manchando o negro delineado da maquiagem em seus olhos.

“Você me desprezou por tanto tempo... Me usou. Se achava tão superior. Agora quem te usa sou eu. Sou eu quem está no comando. Mas se acalme... Isso logo vai acabar. A morte vai te purificar, pois, com ela, será eterna, viverá para sempre”. O homem pegou um instrumento no criado-mudo ao lado. Era um bisturi. Pousou-o sobre sua refém e fez da mulher sua arte. Usou de seu instrumento a ela como um pincel a um quadro em branco. Pintou-a com sua própria seiva, seu sangue jovial, desenhando em seu corpo formas entrelaçadas e sublimes.

A mulher, ainda viva, ajudava seu pintor com a sinfonia de gritos a moldar sua obra. No seu último suspiro, veio a última pincelada e, com ela, o trabalho finalizado.

***

Numa manhã não muito comum, todos acordaram com uma manchete frente a primeiras páginas: “Corpo esmagado por trem”. A mulher, enrolada ao lençol que a envolvia em seu leito de morte, fora entregue a uma linha férrea não muito distante do incidente. Os maquinistas não conseguiram frear o trem a tempo e, por isso, causaram a maior exposição de arte antes jamais vista. O homem então sentiu como era ter uma plateia a ovacioná-lo, como era ser estrela, ser adorado. Seu sorriso era radiante como o que usava para enganá-la, mas, desta vez, este era real.


Última edição por João Marcos Oliveira em Sex Jun 27, 2014 7:07 pm, editado 3 vez(es)
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Patricia Souza
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MensagemAssunto: Re: O Artista - João Marcos Oliveira   Sex Jun 27, 2014 12:38 am

Oh minha nossa! D;

O terror de qualquer mulher, confiar em alguém e acabar violentada, acorrentada e morta por um lunático! Estou tremendo aqui!

Adorei seu estilo de escrita, muito bem conduzida, excelente ritmo! Parabéns!
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João Marcos Oliveira

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MensagemAssunto: Re: O Artista - João Marcos Oliveira   Sex Jun 27, 2014 6:10 am

Patricia Souza escreveu:
Oh minha nossa! D;

O terror de qualquer mulher, confiar em alguém e acabar violentada, acorrentada e morta por um lunático! Estou tremendo aqui!

Adorei seu estilo de escrita, muito bem conduzida, excelente ritmo! Parabéns!

Eu fiz algumas alterações pelas críticas que recebi no widbook, rs. E obrigado pelos elogios.
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Ademar Ribeiro

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MensagemAssunto: Re: O Artista - João Marcos Oliveira   Sex Jun 27, 2014 5:30 pm

João você escreve perfeitamente bem, sua história é um sucesso, um ritmo moderado, mas com certa essência psicótica. Realmente o mal está em todos, basta olhar ao lado. Só um adendo, você fugiu dos dois temas propostos, imagino que este conto já existia antes de ingressar no grupo, de resto tudo perfeito ao meu ver. Parabéns. Anseio pela próxima história.
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João Marcos Oliveira

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MensagemAssunto: Re: O Artista - João Marcos Oliveira   Sex Jun 27, 2014 5:42 pm

Ademar Ribeiro escreveu:
João você escreve perfeitamente bem, sua história é um sucesso, um ritmo moderado, mas com certa essência psicótica. Realmente o mal está em todos, basta olhar ao lado. Só um adendo, você fugiu dos dois temas propostos, imagino que este conto já existia antes de ingressar no grupo, de resto tudo perfeito ao meu ver. Parabéns. Anseio pela próxima história.

Sim, eu escrevi ele no mesmo dia que descobri o tema do grupo, haha, mas o escrevi por um desafio, daí usei para os dois, pois achei que não fosse tão avulso. Não sei se o conto se encaixa em "terror", pois bem, creio que isso não vá assustar ninguém, e não aborda dia dos namorados, mas um sentimento doentio de posse. Se for desclassificado, avise.  Very Happy
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Patricia Souza
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MensagemAssunto: Re: O Artista - João Marcos Oliveira   Sex Jun 27, 2014 6:00 pm

Na minha opinião fecal, esse dia poderia muito bem ser dia dos namorados. Tem jantar e tudo, basta alterar pra deixar isso claro. O terror está aí, na moça acorrentada e violentada, no nosso psicopata. Pra mim valeu! Very Happy
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Ademar Ribeiro

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MensagemAssunto: Re: O Artista - João Marcos Oliveira   Sex Jun 27, 2014 6:39 pm

Com certeza o terror não está em nossos olhos no qual lê a história, mas está na moça em que nos colocamos no lugar e sentimos o medo da violência e da morte. Pra mim está perfeito.
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João Marcos Oliveira

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MensagemAssunto: Re: O Artista - João Marcos Oliveira   Sex Jun 27, 2014 7:05 pm

Patricia Souza escreveu:
Na minha opinião fecal, esse dia poderia muito bem ser dia dos namorados. Tem jantar e tudo, basta alterar pra deixar isso claro. O terror está aí, na moça acorrentada e violentada, no nosso psicopata. Pra mim valeu! Very Happy

Vou colocar esse detalhe.
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João Marcos Oliveira

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MensagemAssunto: Re: O Artista - João Marcos Oliveira   Sex Jun 27, 2014 7:08 pm

Pronto, dia dos namorados.  Cool 
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Carol Rodriguez

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MensagemAssunto: Re: O Artista - João Marcos Oliveira   Seg Jun 30, 2014 12:36 pm

Gente D:
Um dos meus piores medos!
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Queirós

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MensagemAssunto: Re: O Artista - João Marcos Oliveira   Seg Jun 30, 2014 2:35 pm

Excelente narrativa, nenhuma crítica a fazer. A história eu já vi mil vezes, mas a forma narrada é única.



Espere... Pra onde foi o dia dos namorados? Agora que percebi, AHAHA.
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