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  FAVELANDO

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Vinícius Tadeu



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MensagemAssunto: FAVELANDO   Sab Out 25, 2014 11:40 am

FAVELANDO

— Não sou assassino Magnata!
— É um bandido! E eu vou caçá-lo e matá-lo igual se mata um rato. Liberte meu filho já, imediatamente, e ai de você se ele foi maltratado — respondeu em tom alterado a pessoa que atendia pelo pseudônimo de “Magnata”.
O autoritarismo na voz aos gritos, no tom daqueles que não estão acostumados a serem contrariados, deve ter provocado um riso interior na pessoa do outro lado da linha; mas era difícil dizer, porque não houve mudanças na expressão facial ou na fala.
— Ainda bem que não penso como você, ou o seu filho já estaria morto há mais de um ano — tornou com a calma daqueles que sabiam nada ter a perder.
— Não vou ceder a exigências absurdas!
— Chama de absurdo eu querer metade de toda a fortuna que conseguiu acumular nessa vida, sabe-se lá a custo de que ou de quantos. Eu tenho a certeza de ser essa uma proposta lógica e sensata. Ilógico e insensato seria se eu quisesse tudo, como você e seus iguais sempre o fizeram. Não concorda?
— Metade de tudo que eu tenho ou da minha família. Acha mesmo que isso é uma proposta sensata? — respondeu e perguntou o Magnata, sem abrandar o tom de voz.
— Ainda sobraria sua filha! É muito mais do que sobrou para mim.
— Gasto tudo o que eu tenho, mas vou pegá-lo.
— Faz mais de um ano que você está tentando fazer isso e até agora não conseguiu nada. Sequer sabe onde estou.
— Eu vou te pegar!
— É melhor ouvir uma gravação dos meus motivos; pode ser demorada, mas vai fazer com que entenda de uma vez por todas.
Na sala onde estava o homem tratado pela alcunha de Magnata existiam outros homens, todos vestidos de terno e gravata. E foi um deles que falou:
— Aceita! É a oportunidade que estávamos esperando, eles sempre vacilam e se esquecem do tempo que levamos para rastrear uma ligação; e só saber esperar o momento certo. E o momento é esse! Como está o rastreamento? — fez a pergunta a um dos homens.
— Precisamos de mais alguns minutos, mas vou conseguir — respondeu o outro, um que monitorava alguns dos aparelhos eletrônicos instalados no local.
— Vou ouvir o que você tem a dizer — disse o Magnata com a voz em tom moderado.
Sem se preocupar com a resposta, após sua última fala, o jovem colocou o aparelho numa caixinha plástica amarrada a um fio de nylon, acionou um gravador eletrônico que já estava em seu interior e liberou um punhado de balões de festa cheios de gás hélio e presos uns aos outros. A gravação com a sua voz começou a ser reproduzida enquanto os balões ganhavam o céu levando sua carga.
“Milhões de pessoas morreram durante e bilhões delas com o fim do capitalismo que dominava o mundo. Este pode ter sido o sistema responsável por aquilo que você chama de desenvolvimento, mas também o foi pelo quase aniquilamento da espécie humana. Então, onde está o benefício? Magnata, você é o último representante dessa raça de gananciosos e eu o primeiro da nova era; a era do existencialismo. Eu farei de tudo apenas para permanecer vivo! E você vai fazer de tudo para manter o que ainda lhe resta de poder. Você representa o amor ao dinheiro e às coisas e eu o amor à vida. Seu sistema não criou pessoas e sim consumidores para seus produtos; sem se importar com a contaminação e degradação do planeta. Você sabia, desde a Revolução Industrial, que esse tipo de sistema não se sustenta sem um crescimento exponencial dessa população de ...”
Soltos do alto de um morro da cidade do Rio de Janeiro, os balões carregando sua pequena caixa com os dois aparelhos ganharam altura rapidamente, e com o vento soprando forte do litoral para o interior, rapidamente se distanciaram do local de onde partiram.


No QG montado na mansão do bilionário o alvoroço estava para começar.
— Consegui!
— Onde?
— No rumo de Volta Redonda — disse o responsável pelo rastreador.
— Seja mais preciso — insistiu aquele que liderava o grupo de agentes.
— Não fixa posição, pode estar em um carro ou mesmo num avião; não... muito lento para um avião, mas não esta seguindo o traçado da rodovia. Não sei exatamente o que pode ser.
— Asa delta ou Parapente?
— Pode ser... a velocidade é compatível.
— Enviem equipes para as áreas de salto nas imediações e prendam todos que estiverem nos locais; e helicópteros para interceptação.
As ordens movimentaram os demais homens de terno e, em instantes, todos estavam com os celulares nas mãos transmitindo ordens.
O celular a bordo do rudimentar transporte aéreo continuava transmitindo o texto gravado.
“... consumidores; e sabia também que isso não podia ser eterno. Eu sou o último de uma família antes numerosa. Quantos outros não pereceram junto com seus entes queridos por falta atendimento médico e segurança; os primeiros sistemas a entrarem em colapso. Lembra-se, Magnata, que tudo começou pela falta de dinheiro para comprar remédios ou pagarem por atendimento hospitalar depois do bloqueio das contas bancárias e da falência dos planos de saúde; área em que, o sistema público, antes caótico, ficou imprestável. O restante foi fruto do desespero! Sua polícia, que antes servia para proteger o sistema, hoje é utilizada apenas para protegê-lo; gente nossa que, em troca de umas poucas migalhas, se sujeita às suas ordens. Uma polícia que foi criada e organizada com o dinheiro do povo. Meu dinheiro! Dinheiro esse que ...”


No topo do morro, o jovem desceu da laje onde estava e entrou em uma sala onde um aparelho de som tocava um funk.
— Baixa o volume, precisamos conversar — disse a outro rapaz que estava próximo ao aparelho.
O som da música praticamente desapareceu e Zica, o que havia descido da laje, falou ao grupo de seis pessoas, entre homens e mulheres, todos eles na faixa de 15 anos de idade:
— Vamos, tragam o rapaz, não vai haver pagamento; o pai dele vai morrer abraçado ao dinheiro.
Embora a forma de pagamento a que Zica se referia fosse uma distribuição de dinheiro aos moradores das favelas, nenhum deles pareceu se importar com o fato. Não achavam o dinheiro tão importante assim e tinham a certeza dele não valer mais nada.
Enquanto isso acontecia, já bastante distante, a carga dos balões continua transmitindo.
“... hoje não vale mais nada, não para mim ou para os meus pares; mas valia quando o confiscaram, arrebatando o pouco que consegui guardar. Minhas economias foram roubadas com a justificativa de evitar a quebra do sistema financeiro, quando eu mais precisava delas. Seu banco hoje guarda um produto que não interessa a ninguém, eu não troco dez balas do meu fuzil pela devolução do dinheiro que me foi tomado pelo seu sistema financeiro falido. Eu não sobrevivi ao desmantelamento social graças a você ou aos seus pares, mas sim em razão daqueles que vocês sempre combateram. O poder paralelo é e sempre foi uma realidade em nosso meio, mas hoje é nossa única esperança; o único a apoiar milhões de famílias. Aprendi a sobreviver com pouco e por isso continuo vivo, aguardando a hora em que vocês virão a mim procurando por guarida. Tomei pela força tudo o que precisava porque não tive alternativa. É a lei da sobrevivência, uma lei bem mais antiga do que as que foram criadas por você e os seus. Uma lei natural! Mas antes de procurarem por minha ajuda vocês vão ter primeiro que favelar seus modos e pensamentos. Minha lei é rápida e com ela elimino tudo o que for nocivo à comunidade: seja alguém que não se enquadre ao meu estilo de vida, mas insiste no meu convívio, ou mesmo alguém a quem não posso ajudar, mas que também insiste em não seguir seu próprio destino em outras paragens. A favela não tem cercas e nem muros altos, todos podem ir e vir; só não podem aqui permanecer fora de meus termos. Em assim o sendo, você também é bem-vindo!”
A gravação terminou.


Cleverson, o garoto mantido em cativeiro, um ruivo de 17 anos de idade, cabelos lisos, roupa de marca surrada pelo uso contínuo, fixou os olhos azuis em cada pessoa do grupo antes de perguntar:
— E aí, ele não vai pagar; não é?
— Não! — respondeu Zica, um moreno forte de cabelo encaracolado, olhos castanhos e fala mansa, mas firme.
— Você vai me matar? — disse o ruivo, como se fosse uma coisa natural.
— Eu já disse ao seu pai que não sou assassino; eu só mato por necessidade, basta apenas não me forçar a isso.
— E o que eu tenho que fazer?
— Você vai ficar comigo por um tempinho, o suficiente para ouvir tudo que eu tenho para te dizer e ver o que tenho para mostrar; depois pode ir embora. No momento não posso te libertar, isso me colocaria em risco; se você voltar agora seu pai vai mandar jogar bombas incendiárias na favela. Não quero a morte de inocentes e muito menos a minha.
— Vai confiar em mim?
— Se me der sua palavra!
— Pois a tem!
— Então vista algumas de minhas roupas, vou mandar queimar essas aí. A Nega vai tingir seus cabelos e fazer um permanente encaracolado; e a partir de agora você é meu primo.
— Por isso você me fazia ficar no sol todos os dias, para ficar bronzeado; você sabia desde o começo que meu pai não ia ceder.
— Ele é muito apegado ao dinheiro, mas não o culpo; foi criado assim.
— Mas eu culpo, foi uma desilusão; sempre me achei mais importante que tudo.
— Como eu te disse há pouco, ele foi criado assim; é difícil mudar.
— E o que eu faço agora?
— Depois que trocar as roupas e mudar o cabelo vamos dar umas bandas por aí.
— Certo!


Não muito distante dali, em uma rampa de salto alguns jovens estavam sendo mantidos deitados no chão e com as mãos nas costas.
— Traga esse aí — ordenou um dos homens.
O indicado foi pego pelos braços e arrastado até o local onde estava o mandante.
— Quantas asas ainda estão voando?
— Duas ou três apenas, o dia não está legal.
— Conhece?
— Sim! O Relâmpago e o Carcará, aquelas duas — o que estava sendo interrogado apontou dois pontos no céu — O Seco já deve ter pousado.
— Eles estão sempre aqui?
— Sim! Quase todos os dias!
— Onde vão pousar?
— Se não conseguirem voltar, mas é provável que sim, na Barra.
— Informe pelo rádio para que uma viatura verifique se esse tal de Seco pousou lá — o que ostentava patente falou com um dos soldados.
— E aproveita e pergunta pelo resultado nos outros pontos — disse o suboficial, falando pela primeira vez.
— Certo!
O soldado chegou à viatura exatamente no momento em que começava uma transmissão via rádio vinda de um dos helicópteros.
“Alvo localizado, é um punhado de balões de festa com uma caixinha pendurada, o transmissor deve estar dentro. Instruções?”
“Gavião um, abandonar missão!”
“Gavião um, ciente!”
Sem se preocupar em transmitir as ordens anteriormente recebidas o soldado voltou até seu oficial.
— Tenente, localizaram a fonte; não é asa, é um balão de gás. Acho que nos enganaram.
— Certo! Vamos embora.


Na favela, Zica e Cleverson, agora tratado pelo apelido de Bandeira, andavam nos arredores.
— Nesse barraco funciona uma de nossas escolas — Zica apontou uma casa rústica fechada com tábuas e coberta com telhas de barro.
— O que ensinam?
— A sobreviverem... permanecerem vivos.
— De que forma?
— As maneiras possíveis: quando e quanto comer, o que comer; e, principalmente, como conseguir comida. Como evitar doenças, já que não podemos tratá-las. Como se defender; nessa idade praticamente se escondendo. Por aí!
— Qual a faixa de idade?
— Nesse tipo, dos seis aos dez anos.
— Então existem outras?
— Sim! Aos mais velhos. Técnicas de lutas, tiro e assim por diante.
— Não ensinam a ler e escrever?
— As mulheres mais velhas, aquelas que sabem, até tentam; mas não existe muito interesse.  Vamos nos sentar aqui — Zica indicou uma pedra próxima a um barranco.
— Olhando daqui não parece ter mudado muita coisa — Bandeira apontou Copacabana.
— Tudo que se olha à distância parece não mudar, acredito que a Terra vista do espaço dá a mesma impressão. Entretanto, se você descer lá hoje não vai mais encontrar o seu mundo. Aquilo é um deserto, sem água nas torneiras, sem energia elétrica, sem supermercados; destes, você ainda encontra os prédios, mas sem nada nas prateleiras. É quase vazio de gente também!
— Isso tudo mudou em um ano, neste ano que estive preso aqui no morro?
— Sim! Infelizmente sim!
— Como aconteceu tudo isso Zica?
— Tudo começou com a falta de água. Primeiro, as fábricas tiveram que diminuir a produção e dispensar empregados, depois, reduzir os dois ainda mais; até fecharem as portas. Sem reabastecimento os produtos foram ficando cada vez mais escassos, o que ocasionou uma corrida às compras para estocá-los em casa; com isso os preços foram elevados às alturas. Uma hiperinflação de até cem por cento ao dia se instalou. O resultado foi uma corrida aos bancos para retirarem todo o dinheiro e comprar em comida. Numa tentativa de conter o consumo e a inflação o governo confiscou a poupança. Aí começou o saque generalizado. Os policiais também têm família e saíam com as viaturas lotadas. Quando não existia mais nada em armazéns e mercados começou o saque às residências. Daí uma corrida às armas com o propósito de proteger seus víveres. Quem não se armou teve que entregar na marra tudo que tinha estocado; muitos morreram defendendo o pouco que tinham para sustentar os filhos. Só restou à população uma corrida para o interior do estado. Deslocavam-se aos milhares, protegidos por uma espécie de milícia armada; pior que um enxame de gafanhotos, pois levavam quase tudo o que não devoravam no local. No final, a maioria foi dizimada por seus próprios protetores.
Bandeira tinha ouvido tudo em silêncio e quase não podia acreditar existir alguma coisa de verdade no que tinha acabado de ouvir.
— Mas tudo parece tão calmo, lógico que não vejo trânsito algum; mas aqui no morro está tudo tranquilo.
— Eu pressenti o que ia acontecer e consegui convencer uns poucos amigos. Cavamos buracos, usamos poços antigos e secos como depósitos. Participamos das pilhagens e de algumas milícias armadas; com isso estocamos bastante comida, a maior quantidade em enlatados. A população que se armou mal sabia utilizar os armamentos comprados e foram presas fáceis, conseguimos mais e mais em armas e munições; e, com isso, formamos um exército. O único hoje existente com comando. O contingente das forças armadas, nas três armas, foi praticamente reduzido a zero; mais pelas deserções do que pelas baixas em combate.
— Tudo isso em apenas um ano! Isso é o que me deixa intrigado — comentou Bandeira, incrédulo, mas agora sem duvidar de qualquer palavra de Zica.
— Eu achava que seria mais rápido ainda, ninguém consegue sobreviver sem água por mais de sete dias. Demorou!
Zica olhou para o rapaz detidamente antes de continuar:
— Acho que agora você está pronto para a primeira prova. Venha!
Os dois começaram a caminhar por uma rua morro abaixo. A quatrocentos metros da base já se podia ver uma estranha muralha. Bandeira foi ficando cada vez mais atônito. Quanto mais desciam, mais detalhes ele percebia na macabra muralha: braços, pernas, cabeças; todos carbonizados.
— É para isso que roubávamos gasolina, para queimar os corpos e impedir a proliferação de doenças. Quase todos morreram tentando invadir o morro. Existem muitos outros muros iguais a esses na entrada de outras favelas. Digo quase todos, porque ali também estão os corpos de muitos parentes, amigos, mulheres, crianças e até de animais domésticos; destes últimos, somente aqueles que morreram de doenças, os demais foram devorados. A fome nos transforma em animais ou nos devolve às origens; não sei bem o quê.
— Por que eu fui capturado?
— Isso foi há mais de ano, quando o governo decidiu confiscar a poupança; eu queria o dinheiro de volta. Seu pai é o maior banqueiro. Eu fiz um cálculo de quanto foi tomado do povo das favelas, uma média, para ser mais exato. Eu sabia também que seria loucura tentar pegar a importância do resgate, então decidi que esse valor deveria ser distribuído ao povo das favelas; seu pai nunca concordou em pagar e o tempo foi passando. Depois você se tornou nosso escudo, sem saber em qual favela você estava escondido ele não arriscaria um ataque com bombas. Devo te informar que houve lançamento de Napalm em alguma delas, mas isso antes de você ser feito prisioneiro. Olhando por esse lado, não pode dizer que você não é importante para seu pai. Daí as constantes provas de que você estava sendo mantido vivo e bem tratado. Ele nunca perdeu a esperança de recuperá-lo com vida; isso eu posso afirmar.
— E por que esta mudança agora?
— As coisas estão se recompondo, entrando nos eixos novamente e pessoas como você é que vão impor uma nova ordem econômica. Espero que depois de conhecer os dois lados, você possa achar um meio que não mire neste mesmo rumo; porque este é o caminho do desastre social. No momento as poucas fábricas são tocadas em um regime de escravidão, as pessoas são obrigadas a trabalhar para não morrerem de fome; e eu até concordo que não existe outro meio. Elas recebem produtos de primeira necessidade pelo trabalho e a economia de mercado é praticamente inexistente. As poucas coisas vindas do interior, em sua maior parte gêneros alimentícios, são trocados por uns poucos produtos industrializados; em resumo um mercado de escambo.
— Mas eu não sei como ajudar, mesmo que concorde, não sei o que fazer; sempre dependi do meu pai para tudo. Sou apenas um filhinho de papai, confesso.
— Isso aconteceu naquela época e em um mundo que não mais existe. Hoje as crianças se tornam adultas aos doze anos e você já vai fazer dezoito.
— Qual é o plano? Você deve ter um?
— Sim! Vamos percorrer todas as favelas. Rio, São Paulo, Brasília; todas. Nos moldes de uma campanha política.
— O que você tem em mente?
— No momento apenas te mostrar tudo, você nunca conseguiria sem mim; seria morto.


Com um sistema de transporte precário os dois levaram meses visitando favelas e mais favelas por todos os cantos do Brasil. O discurso de Zica era sempre o mesmo em todas elas.
— Vamos descer o morro!
— Como assim? — era sempre a pergunta.
— Nós vamos descer para as cidades e ajudar a reconstruí-las. Restabelecer o sistema de infraestrutura: água, esgoto, energia elétrica, telefonia, transporte; tudo.
— E o que tem isso de diferente de tudo o que já existia — uma colocação óbvia que sempre aparecia.
— Nada! Eu descobri que é impossível viver bem se não existir um mínimo de conforto. Até aqui eu pensava que podia me isolar na favela e viver à parte do restante do mundo, mas não dá. Não sou mais culpado do que ele — referindo-se ao Magnata — por este colapso, mas também não menos. Nunca fiz nada para facilitar a vida dele e, até certo ponto, fiz muito para dificultar. Chega de ser tratado como um coitadinho, um sem sorte; um prejudicado pelo destino. Quero fazer parte de um mundo que ajudei a construir.


Quando retornaram à cidade do Rio de Janeiro mais de um ano havia se passado e a despedida dos dois, agora amigos, foi diferente e calorosa.
Uma asa delta pousando na praia da Barra da Tijuca não tinha nada de estranho, mesmo para esses novos tempos. Entretanto, uma pessoa mais atenta teria estranhado um engravatado descer em um voo duplo.
— Cleverson, é estranho te tratar por esse nome, confesso ter me afeiçoado ao Bandeira; mas tem que ser assim. Vá com Deus e lembre-se sempre do que conversamos, só é possível construir um mundo habitável e sem desperdício de recursos, ainda mais agora com eles tão escassos, com a contribuição do quarto poder. Eu posso ser, como seu pai diz, um bandido; mas meus comandados são mais fiéis e muito, mas muito mesmo, mais obedientes que os soldados do exército dele. Qualquer um dos meus morreria por mim, pergunte a ele se um apenas dos dele faria o mesmo. Eu poderia descer o morro para um confronto com seu pai, o Magnata, e, não duvide, eu seria o vencedor em todas as frentes e, por isso, da guerra. Estou disposto a descer em paz e ajudar na reconstrução, mas você viu muitas vezes como tratamos alguns tipos de criminosos; neste caso, coloco a palavra criminoso do nosso ponto de vista, e lá não vamos agir diferente. Ele deve estar avisado. Vá em paz!
O homem que respondeu a seguir nada tinha do antigo rapaz do cativeiro, novamente os cabelos ruivos, mas só isso; e dessa vez penteados para o lado direito. Barba bem feita e trajando um Armani, camisa social branca e gravata, sapatos lustrados, tudo de boa marca; com certeza fruto de alguma pilhagem promovida por Zica.
— Adeus!
Assim que o Zica desapareceu de vista Cleverson retirou um celular do bolso e discou um número.
— Alô! — uma única palavra, mas o suficiente para o rapaz reconhecer a voz do pai.
— Pai, sou eu. Pode vir me buscar?
— Filho! Onde você está?
— Na Barra, mas vem você mesmo e, por favor, não avisa ninguém. Pode vir tranquilo estou sozinho e bem.
Em menos de 30 minutos um carro blindado parou ao lado do rapaz e ele entrou.
— Quase não te reconheci, logo você que era avesso a terno e gravata; forçaram você a isso?
— Ninguém me forçou a nada, mas depois te conto tudo. Como está a mamãe?
— Ela ainda não sabe, confesso que não acreditei muito quando me ligou; lógico que minha esperança é que fosse verdade. Sua mãe está bem, tenta ser mais forte do que é; vez por outra a pego chorando. Vai ficar feliz que tudo acabou. Sempre se recusou a deixar o país, talvez agora que você voltou ela concorde; existem muitos lugares que não passaram por esta agonia. Você está a par de tudo?
— Mais do que pensa, mas deixa pra lá. Como está minha irmã?
— Perdeu a alegria de viver, vamos ver se com seu retorno ela volta ao normal. São tempos difíceis, nem tudo vai voltar a ser como era.
— E nem pode, muita coisa tem que ser mudada; depois quero conversar com calma.


Em curto espaço de tempo a família toda estava reunida formando uma cena de dar inveja: choros, risos e muita festa; mas tudo durou apenas até que todos quiseram saber o que tinha ocorrido nesses dois anos de separação.
— Fui prisioneiro durante um ano...
— Dois anos, quatro meses, doze dias e dez horas — seu pai deu o tempo exato.
Todos concordaram com o Magnata com um movimento de cabeça.
— Não! E, por favor, não me interrompam. Fiquei prisioneiro por apenas um ano e três meses, o outro ano e poucos meses eu viajei por todo o Brasil; principais capitais e algumas cidades do interior de cada estado. O que eu vi nesses lugares não difere em muito do que acontece em nossa cidade. Nas favelas, por todas elas, a mesma cena se repete. Alguém comanda o lugar e, isso, quer vocês queiram ou não. Existe um poder paralelo, incontrolável pelos moldes modernos, mas por tudo que eu vi; pode ser controlado pelos sistemas mais antigos. Em cada uma delas existe uma cultura bastante diferenciada das outras, muitas das vezes religiões diversas, um linguajar peculiar e até encontrei começos de uma literatura bastante diversificada; mas todas elas com potencial para serem centros políticos, culturais e econômicos. Em resumo, ele, o dono do poder lá, não vai simplesmente entregá-lo a você — olhou atentamente para o pai —; mas pode nos ajudar a reconstruir esse país. O outro caminho, o do confronto, vai acirrar esta guerra civil que já estamos vivendo; ao custo de bilhões de dólares anuais. Um dinheiro que pode ser empregado na reconstrução. E até onde eu sei isso se repete por todos os cantos do mundo; nos Estados Unidos as cadeias estão abarrotadas, a um custo altíssimo para os contribuintes.
— O que você sugere — O Magnata aproveitou a pausa e perguntou, ao ver coerência na fala do filho.
— Os moldes da Cidade-Estado, um local independente, que possui seu próprio governo; uma cidade dentro de outra.
— E os excessos, os desmandos, isso que aconteceu com você é um exemplo.
— Arestas! E arestas podem ser aparadas, neste ponto eles são muito mais maleáveis que nós; por outro lado, muito mais rigorosos. Por exemplo, estupradores são executados.
— Mas são eles mesmos que estupram e matam — disse sua irmã.
— Não! Isso acontece aqui e mais pela falta de punição exemplar, como eu disse há pouco. Lá os estupradores são mortos sumariamente, assim que for comprovado ser ele o autor.
— Então eu acho bom esse negócio de cidade não sei o quê — voltou a falar a garota.
— Segundo o Relatório da CIA, o poder relativo de atores que não são Estados, aí incluindo empresas, tribos, organizações religiosas e até mesmo o das redes criminosas continuará a crescer. Não sei como pode ser feito, mas acredito ser possível uma conciliação — falou o Magnata depois de pensar por algum tempo, parecendo alheio à conversa.
— Não podemos esquecer que é nas favelas o berçário de jogadores de futebol e de uma grande variedade de músicas populares; embora eu não goste dos dois — disse a mãe do rapaz.
— Concordo plenamente e deixo isso colocado para pensarem e tenho a certeza de que você, meu pai, o Magnata, há de encontrar uma solução. Pretendo fazer minha parte entrando para a política, se meu pai concordar.
— Se eu concordar... é o que mais quero. Vamos festejar — disse o Magnata.
E a festa continuou.


Última edição por Vinícius Tadeu em Ter Nov 04, 2014 9:16 am, editado 2 vez(es)
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Ademar Ribeiro

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MensagemAssunto: Re: FAVELANDO   Ter Out 28, 2014 5:49 pm

Vinícius que belo conto nos trouxe.

Excelente história, recheada de de diálogos, embora senti a falta das gírias e dialetos de Zica. Sua abordagem do tema foi exemplar, mas lhe pergunto onde está o subgênero? Cadê o realismo mágico? Seria a nuvem de gafanhotos? O subgênero não ficou claro para mim, se puder me direcionar.

No geral teu texto está ótimo, uma linguagem simples, dinâmica e sem muita enrolação, embora seja um texto longo. Me senti contagiado com a inserção do Bandeira na viagem, gostei muito desta abordagem politizada, isso é uma premissa para o que iremos enfrentar logo mais.

Parabéns, apenas reveja este lance do subgênero - realismo mágico. Até Novembro.

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Espero que leia os outros textos e deixe sua impressão. Te espero mês que vem. Sem mais!
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Vinícius Tadeu



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MensagemAssunto: Re: FAVELANDO   Qua Out 29, 2014 7:34 am

Amigo Ademar, de fato essa separação entre realismo mágico, maravilhoso e fantástico complica bastante se tentarmos vasculhar a internet a procura de conceitos e características (alguns sequer as classificam e as dão como "sinônimas"); eu costumo ficar pelo básico: a representação do possível, mas improvável de acontecer; a retratação de folclores e lendas; e o fantasioso, respectivamente. Ao escrever esse conto deixei os meus personagens "de série" - aqueles que desaparecem num canto e reaparecem em outro - de lado; à exceção de "Blindagem" que se encaixa mais no realismo maravilhoso, todos os outros estão no fantástico. Quanto ao Zica, faz parte da outra realidade das favelas, a que procurei mostrar; um mulato sem gíria e sem trejeitos. Se vier a imperar o existencialismo, tal qual no tempo das cavernas, vai sobreviver o mais bem preparado para enfrentar aos demais. Acredito que o maior mérito do realismo mágico é deixar espaço para o leitor pensar e completar com as suas próprias conclusões os "vácuos" deixados propositalmente pelo escritor. Ano que vem vou para o romance puro, um campo onde é mais fácil vender livros; por isso estou gostando desses treinos diferentes de escrita. Abraços fraternos e um desejo sincero de sucesso em sua carreira de escritor.
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Tammy Marinho

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MensagemAssunto: Re: FAVELANDO   Qua Out 29, 2014 8:02 am

Esse foi um dos textos que eu mais gostei no contexto do enredo, principalmente pela crítica aguda ao sistema capitalista. Eu também gosto dessa questão de um mundo pós-apocaliptico ainda moldado através da razão e da consciência humana. Nada de Uto ou Distópico.

Entretanto, eu li por duas vezes e desconsidero qualquer existência do subgênero no texto em questão. Eu penso que possa ter ocorrido uma interpretação errônea do mesmo.
Também não me convence esse final, onde o Magnata foi convencido por uma conversa com o filho. Isso tirou um pouco da personalidade e da coerência de ações em relação ao Magnata.

Do restante, meus Parabéns!

E até Novembro... onde to esperando muito de vosso conto Smile
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Vinícius Tadeu



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MensagemAssunto: Re: FAVELANDO   Qua Out 29, 2014 9:16 am

Tammy, meus sinceros agradecimentos. Tenho o grupo como importantíssimo para qualquer tipo de escritores, novos ou veteranos, exatamente pelo fato de dispormos de leitores qualificados; daí, a importância da opinião. Escritores renomados gastam muito em pesquisa de opinião, muitas vezes adaptando ou mesmo modificando suas obras; e aqui as temos de maneira gratuita. Só tenho a agradecer a todos. Assim, acredito que o retorno também é importante, por isso, sem nenhuma intenção de rebater opiniões quero colocar o seguinte: Sigo a classificação impossível, absurdo e sobrenatural e tenho as seguintes obras dentro do "maravilhoso", ao contrário das muitas opiniões contrárias existentes na internet: Gabriel García Márquez, Cem anos de solidão e A incrível
e triste história de Cândida Erêndira e sua avó desalmada; obras do peruano Manuel Scorza, como Bom dia para os defuntos e História de Garabombo, o invisível; os romances Pedro Páramo,
do escritor mexicano Juan Rulfo, e Paradiso, do cubano Lezama Lima. Obrigado novamente e sucesso na carreira; volto a afirmar que gosto do seu estilo de escrever.
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MensagemAssunto: Re: FAVELANDO   Ter Nov 04, 2014 9:32 am

Texto revisado. Agradeço ao Rogério pelo empenho no trabalho e posso dizer que concordei com quase tudo, as poucas divergências não interferem no contexto. Vou aproveitar o comentário para uma observação: Tenho visto um excesso de preocupação com pontuação e, embora seja mesmo necessária, às vezes o são pelos motivos errados. A pontuação determina o ritmo da respiração e ninguém vai ensinar outro a respirar, entretanto, nós escritores temos que nos preocupar com a respiração média dos leitores; senão eles perdem o fôlego quando estão lendo ou tem que obedecer o ritmo dos cardíacos. Daí a importância da revisão, não podemos nos esquecer que um escritor quando lê o que outro escreveu - é um leitor; e vai empregar um ritmo próprio. Temos que escrever para o público que pretendemos atingir, mas não só quanto à respiração; em tudo! No meu caso, tenho muita dificuldade de evitar o linguajar forense que me acompanha a 50 anos.
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Rogério Silva

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MensagemAssunto: Re: FAVELANDO   Qui Nov 06, 2014 7:27 am

Vinícius Tadeu escreveu:
Texto revisado. Agradeço ao Rogério pelo empenho no trabalho e posso dizer que concordei com quase tudo, as poucas divergências não interferem no contexto. Vou aproveitar o comentário para uma observação: Tenho visto um excesso de preocupação com pontuação e, embora seja mesmo necessária, às vezes o são pelos motivos errados. A pontuação determina o ritmo da respiração e ninguém vai ensinar outro a respirar, entretanto, nós escritores temos que nos preocupar com a respiração média dos leitores; senão eles perdem o fôlego quando estão lendo ou tem que obedecer o ritmo dos cardíacos. Daí a importância da revisão, não podemos nos esquecer que um escritor quando lê o que outro escreveu - é um leitor; e vai empregar um ritmo próprio. Temos que escrever para o público que pretendemos atingir, mas não só quanto à respiração; em tudo!  No meu caso, tenho muita dificuldade de evitar o linguajar forense que me acompanha a 50 anos.
Vinícius

Fico feliz em ajudar! Grandes abraços,

Rogério Silva

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