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 Monólogo último de um existencialista ateu

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zizgz



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MensagemAssunto: Monólogo último de um existencialista ateu   Sab Nov 08, 2014 5:06 am

Rafael está numa varanda de um sétimo andar e olha em frente. Vê um mar e um pôr do sol. Está frio. Rafael treme e fala para si.

Quem sou eu? O que estou aqui a fazer? Só há respostas curtas e incompletas. Nada. Não sou nada.
Não estou aqui a fazer nada. Não tenho nada, nem ninguém. É simples e claro: nada, nem ninguém. Só preservo uma certa consciência. Posso acabar com tudo, agora, e nada no mundo vai mudar. Só eu desapareço. Não faz diferença. Nenhuma. Será apenas um adormecer sem acordar. Apenas isso. O Deus que inventaram, para apaziguar ou assustar os homens, é apenas uma invenção. Não há mais nada. De certa forma, não há antes, nem depois. Ou pouca importa, o antes e o depois. Neste momento sou só eu, nesta varanda, o sol de inverno, o frio. E depois, nada. Um dormir sem sonhos, sem consciência. Se ainda pudesse chegar a alguém. Mas as pessoas já não me dizem nada. Nem eu represento nada para ninguém. Ninguém depende ou precisa de mim. Estou só. Mas não é a solidão que me assusta. Enquanto ainda tinha interesses, aguentava. Enquanto ainda me entusiasmava e sentia conforto com coisas simples. Mas já não sinto. Apenas desilusão, indiferença, desconforto. Para quê ficar? Não sou cristão, nem crente. Não tenho que estoicamente sofrer para expurgar pecados. Não me sinto obrigado a nada. Estou a tremer, apenas porque está frio, mas não estou delirante, nem desesperado. E não quero estar desesperado. Já tive a minha dose de pesadelos. Já chega. Já soube bem o que é o desespero, o que é estar no limiar. Sei o que é não ser nada.
Só interessa o que sinto. E talvez seja só uma questão de sentido. Já não faz sentido. Só o corpo treme. Eu já não vibro. Já não espero nada.  É tão fácil não querer saber. Os dias seguem na sua superficialidade. Tudo segue na costumada politesse oca. Para mim acabou. Acabou a peça. Acabou.
Houve tempos em que acreditava. E lutava. E não o lamento. Fazia sentido nessa altura. Tive objetivos, ódios e amores de estimação. O mundo não é melhor nem pior por causa disso, mas aconteceu. E o que tem de acontecer, acontece. Amei, quando foi tempo de amar, estive apaixonado. Estive atormentado também, tive ciúmes, prazeres, desgostos. Agora não. Ainda estou lúcido. Sim, preservo essa consciência, mas nada me interessa. Com a mesma frieza ou leveza com que se apaga um interruptor, posso acabar com a minha vida. Penso, logo existo. Deixarei de pensar, deixarei de existir. O que é uma existência que não se entusiasma, ou preocupa, ou angustia, com o que o mundo lhe dá? Tenho sobrevivido porque ainda encontrava em mim sentidos, interesses. Mas atingi um vazio. Podia, talvez, procurar um psiquiatra, que me iria enfrascar de químicos. Mas não quero estar adormecido, vivendo. Prefiro mesmo apagar de vez. O pessoal continua no seu fingimento. Sim, porque viver tem sempre uma dose de fingimento: fingir que se está bem, que vale a pena, que estamos aqui a cumprir desígnios superiores. Fingir que um jogo de futebol é importante, ou um filme, ou a política, ou a ciência, ou seja o que for. Nada é substancialmente importante.
Não fui sempre assim. Já tive também pessoas na minha vida. Quando isso acontece, só por si justifica continuar. Sei como é doce, e bom, preocupar-nos com alguém, cuidar de outro, e sentir que também somos importantes para esse outro. Sim, aí vale a pena. Mesmo que esse outro sejamos nós próprios. Porque também é bom cuidar de si mesmo, é até suficiente termo-nos só a nós. Mas agora não. É já tarde. Tudo tem um fim. Este pôr do sol é um término de um ciclo. Outros virão. Mas tudo tem um fim. Talvez não seja natural, alguns dirão, terminar com a própria vida. Mas o que é isso de ser natural? E, de facto, não devemos nada uns aos outros, Só o que permitimos. Se dou, é natural o outro esperar mais. Mas eu já não dou nada a ninguém há muito tempo. Eu não espero, mas também ninguém espera nada de mim. Gosto de pensar. De refletir. E faço-o agora uma última vez. Apenas para demonstrar a mim mesmo que não devo continuar. É certo que uma parte de mim tem medo. Sente-se abandonada. Mas para quê ficar aqui a viver esse abandono. É como abortar um filho indesejado, que jamais seria amado. A vida é crua e dura, na verdade. E matar é fácil. Viver é mais difícil.

De outro andar do prédio vem o som de uma música e uma letra.

“Pirilampos meditam, luzindo, sobre a crua dureza do sexo de um inseto-nada. Fodem, na leveza transparente da noite para depois caírem abatidos. Meditam e agem, num só movimento brusco, zen, em que tudo é e nada mais. Insetos, girassóis, bichos ou flores, movemo-nos pela luz, dizendo o que é. E quando já não é, não é. Morreu o pirilampo, depois da foda. Iremos juntos meditar no vácuo.”

Um amontoar de gente debruça-se sobre o corpo. Alguém pergunta quem era - ninguém sabia dizer. Vem uma ambulância e leva Rafael. Uma mulher diz: não há nada mais a fazer aqui. E continua no seu caminho.
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Tammy Marinho

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MensagemAssunto: Re: Monólogo último de um existencialista ateu   Sab Nov 08, 2014 7:23 am

E agora sim, um drama do qual eu gosto.

Eu achei interessante esse grau niilista de entrega na qual Rafael se encontra.
Ele é um suicida anômico clássico, não enxerga sentido na vida, embora compreenda o sentido que os outros enxergam. Mas penso que os pensamentos altruístas para com o outro deveriam ter mantido ele vivo, uma vez que ele não é uma pessoa em crise, ele é extremamente consciente de seu ato, eu diria que friamente consciente, e essas ideias altruístas se contrapõe ao total niilismo que ele apresenta inicialmente.

Por fim, gostei muito da indiferença da sociedade para contra o suicida, embora, a ambulância não fosse levar o mesmo assim rapidamente... haveria perícia e tudo mais.Mesmo porque o próprio suicídio é atentado como crime contra a vida.

Parabéns!
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zizgz



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MensagemAssunto: Re: Monólogo último de um existencialista ateu   Sab Nov 08, 2014 7:29 am

Obrigado pelo comentário. Talvez não transmitisse bem o vazio, apesar da consciência, a que chegou Rafael.
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Ademar Ribeiro

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MensagemAssunto: Re: Monólogo último de um existencialista ateu   Sex Nov 14, 2014 2:30 pm

Achei de fato pouco dramático, não sei identificar se foi a motivação ou a narrativa. Ele sofre, mas pelo que? Apenas a superficialidade da sociedade. Não faltou um motivo mais agravante? Sua narrativa como sempre é bem desenvolvida e melodiosa, leio sem parara, de forma tranquila, gosto da sua forma de escrita.

Parabéns, até mês que vem. Dezembro é mês de papai Noel certo? Então Dezembro Papai Noel vai pintar na Odisseia, fique ligado!

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Espero que leia os outros textos e deixe sua impressão. Te espero mês que vem. Sem mais!
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zizgz



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MensagemAssunto: Re: Monólogo último de um existencialista ateu   Sab Nov 15, 2014 6:08 am

Obrigado, Ademar. Sim, talvez esteja pouco dramático. O que eu queria era transmitir um raciocínio lógico que resultasse na justificação do suicídio. Se há algum drama, será o drama de um existencialista perante a ausência de sentido na vida.
Estarei atento em Dezembro! Por aqui dizemos simplesmente, e apenas, "Pai Natal". Espero contribuir com algum texto. Abraço
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Carol Rodriguez

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MensagemAssunto: Re: Monólogo último de um existencialista ateu   Dom Nov 23, 2014 9:49 am

Honestamente, foi difícil pra mim comentar seu texto.
Sou bem sensível em relação ao tema, mas eu gostei do discurso que o Rafael evocou, apesar de ser contra e não char que é motivo o suficiente.
Você escreve bem, tem mão leve, mas a falta de parágrafos me incomoda.

A melhor parte é o final, como disse a Tammy.
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MensagemAssunto: Re: Monólogo último de um existencialista ateu   

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