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 O garoto da árvore de Natal

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murillomagaroti23

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MensagemAssunto: O garoto da árvore de Natal   Qui Dez 25, 2014 8:32 pm

Ah, o Natal!

Na verdade, não havia suspiro algum. Nunca. Para o protagonista da nossa aventura natalina, o 25 de dezembro, ou mesmo a véspera, era uma data comum. Não era feriado, pois ele não trabalhava. Estudava, sim, mas nunca ficava de recuperação. Nem precisava esperar o Natal, ou o Dia das Crianças ou o aniversário – que a título de curiosidade caía em 25 de março —, para ser presenteado. Os pais faziam questão de darem ‘do bom e do melhor’; ‘tudo que não tiveram quando na mesma idade’, durante todo o ano.

Ele gostava mais de aguardar o ano novo. Tinha um fascínio inexplicável por lentilhas. Sentava em frente o prato, assim que a mãe o autorizava a comer (o que era depois da meia-noite e abraços e beijos e votos de bom ano e recomendações). Comia uma por uma, as lentilhas. Não entendia por que só as tinha uma vez por ano, mas por algum motivo gostava de ter esperado tanto tempo para comê-las.

Pesquisou certa vez na internet, no computador que, aliás, ganhou num Natal, qual era a razão. Se surpreendeu em saber que a lentilha é uma planta trepadeira, como as que ajudava a avó a molhar aos domingos; viu alguma história confusa de uma tal de bíblia que não sabia explicar — os pais e tios eram agnósticos. Outro link que abriu dizia que a trepadeira trazia boa sorte. Para ele, boa sorte era tê-las.

No Natal, não, a mãe não as cozinhava, só havia aquele monte de ave que ele, jura, nunca viu em zoológico, ou chácara, quando a escola o levaria para ver um chester vivo? Ele ficava entediado, corria um pouco pra lá e pra cá, fingia cansaço e dormia na primeira oportunidade. Quando passava da meia-noite era um saco! Acordavam o garoto, um por um, tio por tia, pai por mãe, avó, avô, madrinha, olha o que comprei pra você, Matheus...

Naquela noite, ele mal dormia, tinha se enfiado embaixo das cobertas, e a cara no travesseiro, já aguardando aquele ritual, a ele, completamente desnecessário. Olha aqui, olha aqui, Matheus, é desse que você queria, não? Ele passava os olhos entrefechados pelos presentes que os familiares haviam comprado. Mal viu os três primeiros.

O quarto era um tênis. Ele se levantou assustado. A tia Lúcia com os braços abertos, aguardando o abraço de gratidão, e o garoto queria ver o que havia embaixo da cama? Eram da mesma marca, mesmo tamanho e tudo, acendia uma luz na parte de trás, será que a tia não sabia que ele já tinha um desses? E do Natal passado?

Não estavam lá.

Espera aí, não foi a própria Lúcia, irmã do seu pai, que havia comprado o par no ano passado? Estaria, ele, ainda dormindo?

Matheus tirou a cabeça de debaixo da cama, ainda mais confuso e esperando despertar a qualquer momento. A tia Lúcia já havia dado lugar à avó, que deu lugar ao pai, à mãe, ao tio Carlos, à madrinha Júlia... Os presentes eram os mesmos. Teria ele demonstrado tanta gratidão assim no Natal anterior? Teria abraçado os familiares forte demais?

O quarto já estava vazio, quando o garoto tomou coragem para ver o que o Natal daquele ano ainda tinha por mostrar. Levantou-se, colocou os tênis que a tia deixou ao pé da cama, andou até a sala.

Vazia. Assim como a sala de jantar e a cozinha; o banheiro. Dormiu demais, pensou. Enquanto pensava no próximo passo, viu uma luz forte bem no centro da árvore montada pelo pai dias antes. Caminhou na direção dela.

O brilho ficou mais fosco a cada passo, e a luz, que já não passava de fumaça, como aquela que usaram no aniversário da prima Letícia, veio a seu encontro e passou a tomar forma. Nada de Papai Noel, por favor, o garoto cochichou para si.

*

Não era. Nem mesmo era um senhor. O que a fumaça se tornou foi um garoto, aparentemente da mesma idade, só que com as roupas mais surradas, o sorriso mais calejado, os olhos mais tristes. Que foi, disse Matheus, você também não gosta do Natal?

O garoto puxou Matheus pela mão, e saíram os dois, sem explicações, pela porta da frente.

Não tem ninguém em casa, o garoto finalmente rompeu seu silêncio, de forma rude, depois da quinta vez em que Matheus insistiu que os pais notariam sua ausência. Matheus olhou para aquele rosto, espantado, nunca gritavam com ele. O garoto sorriu, e Matheus esqueceu-se de reclamar.

Foram a tudo quanto é canto da cidade, lugares que Matheus nem sabia que existiam. Iam e vinham, entre árvores, carros, ônibus, subiram no trem, desceram, corriam feito doidos e nunca se cansavam. Pararam para comer, sugestão do garoto da árvore de natal. Matheus disse que nada de chester, hein? Comeram, então, cachorros-quentes, batata frita com maionese-catchup-mostarda e queijo ralado, churros, maçã-do-amor... Matheus pensou que os doces só existiam na TV ou festas juninas. Respectivamente.

As ruas pareciam só dos dois. Matheus agradeceu o amigo recém-descoberto pelas descobertas, jurou a ele que nunca se divertiu tanto, perguntou seu nome. O garoto disse que era hora de ir.

Mas como assim? Nem começamos, tem muito mais lugar pra ir, muito mais doce por aí que eu gostaria de comer. O amigo lhe garantiu que eles ainda se veriam, e que, se Matheus quisesse ir a esses lugares todos, por ele tudo bem. Enquanto Matheus ainda ensaiava uma reclamação, viu que a casa da família já estava a sua frente. Ainda vazia, logo descobriu.

A mão do menino virou fumaça, antes que Matheus pudesse largá-la, e logo o mesmo aconteceu também ao braço, aos pés e às pernas, ao passo que o amigo achava novamente seu lugar no meio da árvore de Natal, no canto da sala. O garoto passou a cabeça por entre as luzinhas decorativas, que ainda piscavam. A essa hora só a cabeça ainda tinha forma; traços definidos.

Espera, aonde você vai? Não vê que esqueceram de mim? Toda a minha família se foi! O garoto sorriu. Eles não haviam ido, Matheus que teria que fazer isso. Olhe para suas mãos. Matheus se assustou. Era muita emoção para uma só noite, pensou. Quando suas mãos haviam decidido se tornar fumaça também? Espera! O que eu faço?

O garoto disse que Matheus poderia se esconder em algum lugar, mas não na árvore, que já era o lugar secreto dele, na árvore definitivamente não.

Quando voltariam a se ver para ver o que não tinham visto, comer o que não tinham comido?

Ora! No próximo Natal, claro, a gente só pode viver para sempre, a cabeça do menino explicou entre as luzes que piscavam, o último dia que a gente viveu de verdade.

Eu morri, então?

Sim, seu burro, quer que eu desenhe?

E...e...de quê?

Talvez você descubra no próximo Natal, o menino disse, meu nome é Rafa, a gente se vê — e sumiu. Matheus, desorientado, andou pra qualquer lado, quando percebeu que sumia dentro daquela ave que não existia em zoológico nenhum... Por que vim logo pra cá? Maldito chester! Isso é pior que morrer. Faltava só uma semana para as lentilhas...
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Ademar Ribeiro

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MensagemAssunto: Re: O garoto da árvore de Natal   Sex Dez 26, 2014 8:15 am

Ótimo aventura, gostei Murillo.

Bem que falou, quase um Gasparzinho. Tadinho, só não arranjou o melhor lugar para se esconder. Tema e subgênero muito bem abordado, diria que é um dos melhores abordados até então, pois o carregou ao pé da letra. Sua narração é dinâmica, e desenvolve rápido o texto. Gosto disso. Parabéns!

Até a próxima!

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Espero que leia os outros textos e deixe sua impressão. Te espero mês que vem. Sem mais!
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Tammy Marinho

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MensagemAssunto: Re: O garoto da árvore de Natal   Sex Dez 26, 2014 1:21 pm

Grata surpresa.

Um texto simples, sutil e gostoso de ler...
Teu conto trouxe um encantamento maravilhoso, não veio para ser impactante, mas de alguma maneira trouxe uma mensagem ao Rafa mostrar a Matheus o valor de coisas simples que ele desconhecida.

Eu confesso que quando começou a aparecer os presentes repetidos, eu já presenti a vibe pór-morte do conto. O que tirou o elemento surpresa, algo não muito positivo.

E sobre o fim tragicômico...
Creio que agora ele irá torcer pra ter Chester todo ano, e as lentilhas não serão assim tão importantes.

Parabéns.

E até Janeiro
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murillomagaroti23

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MensagemAssunto: Re: O garoto da árvore de Natal   Sex Dez 26, 2014 1:32 pm

Tammy Marinho escreveu:
Grata surpresa.

Um texto simples, sutil e gostoso de ler...
Teu conto trouxe um encantamento maravilhoso, não veio para ser impactante, mas de alguma maneira trouxe uma mensagem ao Rafa mostrar a Matheus o valor de coisas simples que ele desconhecida.

Eu confesso que quando começou a aparecer os presentes repetidos, eu já presenti a vibe pór-morte do conto. O que tirou o elemento surpresa, algo não muito positivo.

E sobre o fim tragicômico...
Creio que agora ele irá torcer pra ter Chester todo ano, e as lentilhas não serão assim tão importantes.

Parabéns.

E até Janeiro

Obrigado, Tammy.

Como os temas são pré-definidos, fica um pouco difícil ter esse elemento surpresa que você citou. rs  Nem gosto, como leitor, de me sentir 'enganado'. Me parece um truque barato, quando o texto não traz elementos que caminhem para a revelação.

O Natal do mundo real vai ser sempre o mesmo. Então, vai ter chester sim!   ;DD


Última edição por murillomagaroti23 em Sex Dez 26, 2014 1:35 pm, editado 1 vez(es)
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murillomagaroti23

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MensagemAssunto: Re: O garoto da árvore de Natal   Sex Dez 26, 2014 1:34 pm

Ademar Ribeiro escreveu:
Ótimo aventura, gostei Murillo.

Bem que falou, quase um Gasparzinho. Tadinho, só não arranjou o melhor lugar para se esconder. Tema e subgênero muito bem abordado, diria que é um dos melhores abordados até então, pois o carregou ao pé da letra. Sua narração é dinâmica, e desenvolve rápido o texto. Gosto disso. Parabéns!

Até a próxima!

Obrigado, Ademar.

Não me lembro de ter prometido um conto tipo Gasparzinho. Minhas referências de aventura estão nesses desenhos de agora do Cartoon Network. rs
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talysmcidreira



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MensagemAssunto: Re: O garoto da árvore de Natal   Seg Dez 29, 2014 3:25 pm

Gostei bastante do seu texto Murillo.
Tem uma linguagem simples e isso facilita a leitura( nos faz seguir de forma desenfreada ). Achei bem criativa a ideia apresentada e o final ainda conseguiu me surpreender. Prestei bastante atenção nas pontuações devidamente colocadas de forma propicia. Costumo observar muito o parágrafo inicial e achei muito boa a forma de condução à narrativa.
Parabéns!
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Vinícius Tadeu



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MensagemAssunto: Re: O garoto da árvore de Natal   Ter Jan 06, 2015 7:07 pm

Murilo,
mesmo incluindo o elemento morte, o texto ficou leve; eu diria que até divertido. Gostoso de se ler. Atende a um dos principais motor de procura do leitor: descontração. Parabéns.
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zizgz



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MensagemAssunto: Re: O garoto da árvore de Natal   Sab Jan 10, 2015 5:54 am

Interessante a mistura de elementos reconhecíveis, do quotidiano, com outros fantásticos. Tem detalhes engraçados. É uma pena só poder comer lentilhas uma vez por ano. Parabéns!
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MensagemAssunto: Re: O garoto da árvore de Natal   

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