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 INFERNO INTERIOR

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Vinícius Tadeu



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MensagemAssunto: INFERNO INTERIOR   Qua Jan 14, 2015 12:24 pm

Eu estava mantendo a visão focada em um ponto qualquer no teto do quarto, enquanto esperava o sono chegar.
A cabeça confortavelmente apoiada em um macio travesseiro de plumas.
Na cama, deitado de costas, com as pernas esticadas e os braços paralelos ao corpo, tentava, em vão, estabelecer um ritmo calmo na respiração.
O excesso de problemas que eu tive durante o dia, estava influenciando diretamente o período noturno. Não conseguia dormir.
Nunca fui de “contar carneirinhos”, mas quando tinha alguma dificuldade em conciliar o sono, procurava prestar atenção no movimento de respirar: o ar sibilando nas narinas, o seu trajeto até o fundo dos pulmões e o retorno quando da expiração. Paralelamente, sempre acompanhava a expansão do tórax, em seu rítmico subir e descer; e, uma vez ou outra, forçava uma completa respiração abdominal, forçando a barriga para baixo até o esvaziamento total dos pulmões.
Aquele dia eu estava demorando um tanto mais do que o habitual naquela atividade respiratória e, por um momento, fiquei mesmo preocupado com o excesso de oxigênio no cérebro. A hiperventilação tem muitos efeitos colaterais e atrapalhar o sono é um deles.
Ataques de pânico e de histeria também estão na lista. Mas eu não sabia disso.
Mas sabia que quando o sono demora a chegar não adianta insistir. O melhor é dar um tempo. Levantar, tomar um copo de leite morno; em resumo, tirar de foco o “dormir”. E, só depois de algum tempo, tentar novamente. Estava quase me decidindo por essa medida extrema.
O triptofano do leite controla a produção de serotonina e, esta, a do hormônio do sono, a melatonina; a mocinha da história.
— Eu não devia ter comido tanto churrasco... e nem bebido tanto — grogue de sono, murmurei e continuei. — A vilã está atacando a mocinha.
Tirosina, a que veio com as picanhas, destrói a fracote heroína. A manchete cerebral dava honras à bandida. Eu estava perdido.
A cama, equidistante das duas paredes brancas das laterais, posicionava-me no centro e ao fundo do quarto.
O ambiente na penumbra, mas não escuro ao ponto de encobrir os detalhes do teto e das paredes, permitia-me ver com nitidez o quadro pintado à mão com motivos abstratos e cores fortes. E, mesmo naquela posição, o guarda-roupa também branco, quase camuflado na parede, e que estava com todas as portas fechadas.
O espelho, fixado no lado exterior de uma das portas do roupeiro, refletia a cama e boa parte da parede atrás de mim. Assim, vez por outra, eu me pegava olhando para mim mesmo; se bem que, deitado e coberto até o pescoço por um grosso e pesado cobertor de acrílico, mal dava para ver completamente o rosto.
A noite estava bastante fria, lá fora um vento contínuo, batendo contra as laterais do prédio, produzia um som bastante assustador. Apenas em poucos momentos eu podia ouvir outros barulhos.
Ligeiros e breves ruídos de um veículo passando na rua do prédio, latidos rápidos e abafados de algum cachorro da vizinhança, o estalo do elevador freando em algum andar próximo, e o acionar de alguma descarga, foram os poucos sons que desviaram minha atenção nesses poucos momentos de folga do vento.
Eu tinha ido para a cama bem tarde, mais tarde que o costumeiro; muito cansado e bastante sonolento, mas não conseguia dormir.
A vontade oscilava entre levantar e tentar mais um pouco. Estou certo de que o dedo da preguiça atuou nessa hora. Continuei deitado.
Quase pegando no sono, os poucos, raros e inconclusivos pensamentos foram substituídos, em fração de segundo, por um claro sinal de alerta.
Dois vultos, dois borrões negros, captados por ambos os lados da visão periférica subiam lentamente pelas laterais da minha cabeça, como que escorrendo de baixo para cima. Ou minha cabeça está afundando em algo. Fiquei indeciso.
Os olhos foram deslocados, instintivamente, cada um para o rumo de uma das orelhas, tomando a posição divergente do estrabismo.
O coração tinha sido disparado pela descarga de adrenalina e os pelos do corpo, principalmente os dos braços, foram se arrepiando.
Eu sinto o retesamento da pele.
A instintiva, imediata, e natural reação de fuga foi bloqueada, barrada e impossibilitada, por um torpor involuntário. Eu estava preso à cama.
Algo estava acontecendo... algo estranho.
O quê? Uma simples pergunta, formulada mais pela intuição do que pela razão, gritava em meu interior por respostas.
Não consigo mover o corpo, somente os olhos, mas começo a ter sérias dúvidas também quanto a esse pouco de controle, pois eles se moviam sozinhos, em um deslocar das laterais para o centro do nariz, acompanhando as criaturas que continuavam a subir pelos lados da face, num claro movimento para se unirem em frente ao meu rosto.
Cataléptico, paralisado da cabeça aos pés, impossível de mexer, voluntariamente, sequer os olhos, por algum motivo ainda podia ver as criaturas subindo nos meus dois lados.
Foi a primeira vez que senti um roçar no tronco e, em seguida, nas pernas. Alguma coisa peluda estava se esfregando por todo o meu corpo.
O movimento era no mesmo sentido, ascendente, ou de afundamento; ainda não tinha conseguido precisar.
Gostaria de ver o que estava acontecendo, olhar para baixo e à frente, no rumo dos pés da cama, mas a visão não desgrudava da massa escura em ambos os lados do rosto e, que, agora, estava se fechando ligeiramente à frente dele.
Dois, ou mais do que dois? Quando este pensamento me veio à mente, já não tinha mais a certeza de que quisesse mesmo saber o que estava acontecendo ao lado do tronco e das pernas. Voltei a minha atenção para os que estavam próximo à minha cabeça; estava começando mesmo a achar que eram bem mais do que dois. Dois eu vejo!
Um problema muito maior e imediato não me permitiu ao menos tentar descobrir.
— Estou sendo sufocado — falei, ou ao menos achei que tinha dito isso. Mas cheguei a duvidar quando comecei a perder o fôlego.
Agora eu sentia como se um par de mãos me apertasse no pescoço.
Mãos peludas. Mãos grossas. Mãos fortes.
— Posso senti-las na traqueia — murmurei.
Por mais incrível que pudesse me parecer naquela hora, um peso enorme do pescoço até os pés fazia pressão para baixo; eu podia sentir aquilo como se uma grossa e pesada placa de aço tivesse sido colocada sobre o meu corpo.
Lentamente, se deslocando igual uma fumaça negra, densa e plana, as estranhas criaturas foram se unindo à minha frente até formarem uma coisa só: uma única, escura e compacta placa ovalada. Estranhamente, eu não sentia peso algum na região da cabeça.
Por um momento esqueci-me por completo do estrangulamento, mas o peso da criatura sobre o corpo, mais especificamente na região do tórax me impedia de respirar. Constatar isso só fez com que o sufoco aumentasse.
Eu estou agonizando, quanto isso vai durar? Pensei, exatamente por não saber quanto tempo isso durava. Até então eu não conseguia nem responder, isso o quê?
Minha atenção foi atraída pelo movimento da placa que se expandia em frente ao rosto, qual uma bexiga com pelos enterrada no meu nariz.
Ela tinha mudando de sombra a um objeto tridimensional escuro, como uma bola de futebol americano sendo inflada aos poucos.
É peluda! Eu posso sentir os pelos roçando o nariz e tenho a certeza de que espirraria, se tivesse algum controle sobre o corpo.
O peso no restante do corpo foi ficando mais leve. Uniformemente mais leve. Refiz minha tese de uma bola se inflando, um boneco de plástico parecia se encaixar melhor naquela situação.
— A coisa é inteiramente peluda! — Juntei as impressões do tronco e pernas, com aquela da visão que eu tinha da cabeça. Foi isso que me fez pensar em uma única criatura. Nessa hora, parecia vantagem lidar com um único ser, ao invés de muitos seres.
Pode até ser um só, mas é enorme.
Essa conclusão me fez ver que a vantagem da nova situação era apenas aparente. Até porque, a estranha criatura estava totalmente em cima da cama. Em cima de mim.
O estranho ser agora tinha atingido uma forma mais definida e era mesmo enorme. Eu podia vê-lo, ao menos algumas partes acima do tronco, quase que somente os ombros. E senti-lo ainda pressionando minha barriga, quadril e coxas, mesmo que levemente.
Podia até sentir o cheiro dele... um forte cheiro de suor. É isso, posso sentir também o suor escorrendo em mim.
Ser asqueroso! Não acho que diria isso, mesmo se pudesse; devo até ter pensado baixinho.
Fui me dando conta de que eu podia pensar, mas, isso, ao invés de trazer consolo, trouxe-me mais agonia e pavor. Lembrei-me da respiração.
Se eu não posso falar... também não posso respirar. Então, pensar, é apenas uma vantagem aparente? Consegui constatar e indagar-me.
Foi pior ainda o momento seguinte e já estava me questionando se podia mesmo pensar.
A única coisa que eu sinto é medo.
— Medo não, pavor — corrigi.
Seria o medo uma forma de pensamento?... Não seria apenas uma simples reação a um fato agressivo?... Aquilo tudo era mesmo real?...
— Eu duvido! — Peguei-me de novo falando. Mas como?
Eu não consigo respirar. Estou ofegante.
— Ofegante? Como? Não sinto movimentos no tórax. Não consigo acompanhar o ar entrando e saindo dos pulmões. Não ouço o barulho do ar se movimentando. — Foi quando me dei conta que não mais respirava, ou, simplesmente, eu não mais precisava.
De todo modo, nada parecia fazer muita falta. Não mais.
— Quando foi a última vez que eu respirei?
Os vultos. O medo. A respiração profunda na hora que eu pressenti a estranha aparição se movimentando. Depois... eu prendi a respiração! Ou ela ficou presa?... Essas cenas desfilaram em minha mente.
Quanto tempo já se passou? Quanto tempo eu consigo ficar sem respirar? — Um minuto! Dois! Será que eu vou desmaiar? — Essa pergunta me trouxe novas dúvidas.
Dormindo... desmaiado... mor... — Não cheguei a completar a sequência, tinha a certeza de que não conseguiria encarar tudo aquilo como se fosse mesmo o fim. O meu fim!
Não dava mesmo para saber com exatidão a resposta ou as respostas, porque eram várias.
Fiquei confuso até em ter sentido o cheiro de suor emanado da criatura. Como?... Sufocado?... Sem respirar?...
— Impossível! — Impossível ou não, eu não tinha nada a fazer quanto a isso. Voltei a prestar atenção à cabeça peluda à minha frente.
Eu podia ver nitidamente aquela cabeça logo à frente dos meus olhos... olhos nos olhos. Tinha até orelhas.
Mas não podia ver-lhe, de fato, os olhos. Estariam eles encobertos pela densa cabeleira? Consegui notar algumas depressões. Seriam buracos de fundo negro?... mas sem olhos negros; o vazio da escuridão total. Ou a criatura não tem, ou sequer precisa de olhos.
— Órbitas vazias?! Ele não tem olhos?! Por que ele... não pode ser ela? — Eu consegui a muito custo comentar. E acho que nem eu mais tenho olhos. Cheguei a essa triste conclusão quando percebi que eu é que tinha avançado alguns centímetros até a criatura e não o inverso. Eu quase entrei dentro dela.
— Como eu fiz isso?
Não consegui uma resposta, mas isso me fez querer olhar o meu corpo e acho que foquei a visão para trás.
— Como eu fiz isso? Eu não me virei... — Apenas atravessei a cabeça que estava atrás dos olhos... ou deveria estar. — Apenas?!
Não importa, tem um rosto aqui pertinho! Uma cabeça também. A minha cabeça, e está bem na minha frente, colada em mim... e não é no pescoço. No meu pescoço! Está colada no pescoço do corpo à minha frente. No meu corpo?! Sim! No meu corpo... esse corpo logo na minha frente, na minha cara.
— Olhos nos olhos! Olhos esbugalhados! — Mas dessa vez, eu e minha cabeça. Tinha certeza disso, conhecia muito bem aquele rosto. E o que eu tenho atrás de mim?
Isso tinha toda prioridade do mundo. Do meu mundo... daquele momento. Desliguei-me do que estava pensando antes e foquei na nova situação. Corri os olhos para trás.
Foi pior, muito pior.
Tem um corpo também ali... um outro corpo meu?! Lembrei-me do meu corpo coberto com o cobertor... e que aquele estava de cueca, apenas de cueca. — Onde foi parar o cobertor? — Revi as cenas do filme “O Exorcista”. Na levitação a coberta vai junto. Mas eu não levitei, acabei de me ver deitado na cama.
Confesso que fiquei em dúvidas, aquele corpo de costas para mim parecia-me familiar, mas não estou acostumado a me ver de costas.
Seria o falso aquele na cama coberto até o pescoço?... não! Passou-me despercebido que estava olhando no sentido inverso, novamente. Porém, aquele no rumo do teto, flutuando, parecia-me bem menos real.
Mas se eu sou o que está do lado de baixo, quieto, com o cobertor até o pescoço, e, ao mesmo do lado de cima... Quem está aqui olhando?
A pergunta não me pareceu prioritária, porque eu parecia estar bem... todos os dois.
— Sem mãos no pescoço! — Sem nenhum ser monstruoso em cima e nem acima — os dois pareciam dormir tranquilamente.
Os dois corpos estavam praticamente colados um no outro e não tinha a mínima chance de caber mais um “Eu” no meio dos dois.
— Estranho, mas real. Real?... todos os três?... No máximo, normal. Todos pareciam estar bem, eu inclusive. Eu?...
Naquela distancia eu podia ver bem o meu rosto, dormindo tranquilamente. Afastei-me um pouco para poder ter uma melhor visão do todo. — Sim! Agora posso ver o meu corpo inteiro, quietinho e... sozinho — não creio que me passou pela cabeça, como eu podia me afastar do próprio corpo, mas foi assim.
Eu tinha que terminar por concluir que estava tudo normal.
— Normal?... Normal como?... se sou eu que estou me vendo. — Igual no espelho! Lembro-me que aí a confusão só aumentou. — Só se eu estiver dentro do espelho. — Não faz sentido! Escuto uma voz de alerta:
Atrás, olhe para trás. Não, não eram vozes. Era eu pensando alto... mandando.
Agora eu tinha a certeza de ter pensado, por ter imediatamente me recusado a obedecer a essa ordem... a essa ordem estúpida.
Se a criatura não está ali... ela está... não precisei terminar... e nem queria.
Eu preciso tirar minhas costas daqui, decidi, mesmo sem ter a certeza de ter costas.
Avancei até o mais próximo ao meu rosto que eu pude, ou daquele que até instantes atrás era; mas acho que dei impulso demais.
— Isso é o piso — reconheci o desenho do porcelanato.
Como eu atravessei a cama... e de bruços.
Olhei para trás e pude ver um corpo deitado de costas para mim. Acho que podia ver através da cama. Voltei para a posição logo acima da cama e enxerguei perfeitamente o teto. Sem criatura, sem mais nada sobrenatural; apenas coisas reais.
— Graças a Deus, terminou.
Alguma coisa está errada. — O teto está muito próximo — reparei e falei, enquanto focava novamente a visão para baixo.
Com o susto, quase atravessei a laje. Lá embaixo um corpo, o meu corpo; ainda deitado na cama e coberto com o cobertor de acrílico. Quieto e calado.
— Quieto demais! Calado demais!
Parecia obvio, mas eu nem fiz a pergunta e nem quis ouvir qualquer resposta.
Foi quando notei que eu não tinha medo, não aquele medo que me dominava até a pouco. Esse era um medo racional, mas será que podia existir razão em tudo aquilo.
— Não, Charles, não tem! Ou tem... simples, você está dormindo e está sonhando. Olhe! — Eu olho e quase concordo comigo mesmo. Mas paro com essa reflexão idiota. De fato estou dormindo, acho, e ao que parece, tranquilamente. — Tudo normal?! — Estaria, se não fosse eu que estivesse olhando. Voltei a me preocupar:
— Então, o quê?
— Morto? Não, não acho que eu morri... melhor, eu acho que esse corpo não está morto... ainda respira. Acho?...
Quando falei em som é que notei a existência de outros sons no ambiente. A criatura! — Como eu pude me esquecer dela.
Não foi confortável lembrar-me que eu não estava sozinho. Ou melhor, que nós não estávamos sozinhos; eu e o dorminhoco ali na cama.
Senti um gelo por dentro, mesmo sem saber dentro do quê. Observei que a face do corpo se contraiu. Uma cara de pavor. Medo. O medo estampado no rosto daqueles que estão vendo algo medonho atrás da gente. Medo que tira a fala de quem vê e se manifesta apenas pelas reações.
Nesse caso, atrás de mim.
Penso que o medo é contagiante, pois volto a sentir medo. Muito medo. Um medo incontrolável, mas que eu sabia ser preciso aprender a controlar.
— Pense, Charles, pense — não sei por que, mas naquele estado, o simples fato de pensar me deixava mais tranquilo. Talvez porque isso me dava um mínimo de controle sobre a situação. Eu podia pensar sobre ela. Embora, apenas pensar. Tenho que ter a coragem de olhar para trás.
Porém, não era tão fácil assim. Tinha a coisa, e ela estava em algum canto dentro do quarto.
— Olhei, sem mais, como se tivesse recebido ou dado uma ordem. Sem precisar virar-me. Só olhei.
— Nada! Como nada? Para onde foi a coisa? — Resolvi não me preocupar, afinal, eu também não sabia de onde ela tinha vindo. Questionei até a sua existência. Podia não ser real. Mas alguma coisa estava errada... algo me obrigava a rever minhas impressões.
Um cheiro de desodorante vencido.
— Esse cheiro! — Podia sentir novamente o cheiro de suor, cheiro que me lembrava da presença do ser estranho de há pouco.
Um cheiro forte, recente... daquele momento. Invisível! — Ela pode se tornar invisível?
Cheguei a rir.
— Lógico que pode, estava antes.
Eu devia ter ficado contente com o sumiço da estranha criatura, mas não foi o que aconteceu. O odor revelava sua presença... mas onde? Eu não podia dormir com aquilo. O problema é que tudo indicava que eu estava dormindo.
— Embaixo da cama... Dentro do guarda-roupa... No andar de cima... No de baixo — Achei todas as alternativas válidas, mas as duas últimas não me preocupavam, até achei que seria melhor assim. Que vá assombrar em outro apartamento.
Comecei a procurar.
Rapidamente olhei embaixo da cama. Nada!
A simples ideia de olhar dentro do guarda-roupa me causava pavor, e somente melhorou um pouco quando cogitei a possibilidade das outras duas alternativas: o andar de cima e o de baixo.
Aproximei-me da porta do roupeiro e apoiei a mão no puxador.
— Agora!
O que era para ser um firme puxão não passou de um forte movimento lateral que me fez rodopiar. Nova tentativa, desta vez com menos impulso, também resultou em nada. Eu tinha a certeza de poder segurar o puxador, sentia os dedos se fecharem à volta dele; mas não conseguia forçá-lo para nenhum lado.
— Os dedos atravessam o puxador, sem se ferirem. Mas como?
Na verdade eu já sabia como, tinha visto vários filmes que reproduziam aquela situação. Mas, essa verdade, não parecia me agradar nem um pouco. Seria o mesmo que aceitar estar morto. Acho que estava evitando pensar sobre isso.
A sombra. O vulto. A criatura.
— A morte?!
Acho que não fiquei branco como cera, nem engoli em seco, nem bati os dentes e nem tremi de medo, embora não fosse por coragem.
Pensando bem, não tenho certeza de ainda poder fazer estas coisas.
Eu também tinha visto outras coisas em filmes e, por isso, resolvi olhar dentro do roupeiro.
— Estou vendo, não tem criatura nenhuma lá dentro, somente roupas.
Sim! Eu estava mesmo olhando as roupas, só não sabia como.
Movimentei-me para o lado e parei em frente ao espelho.
— Tudo certo! Eu posso me ver deitado na cama. Tudo está na mais absoluta normalidade.
O que me deixou intrigado foi estar certo de poder ver de um ângulo diferente ao da posição deitado. Mas o espelho não refletia nada mais do que isso, nem mais um “eu”, e nem “coisa” alguma.
— E os espelhos não mentem! — Isso para mim significava que no quarto só tinha eu, e mais ninguém. Mas, de repente, me passou pela cabeça que o “Eu” pensante não era aquele deitado na cama ou, ao menos, não era o mesmo “Eu” que estava olhando no espelho, e me olhando deitado na cama. Confuso?! Concordo!
Eu tinha que pensar, apenas porque enquanto pensava eu sentia um controle da situação, mesmo que aparente.
— A mão! — Só agora eu me lembrava de ter usado uma das mãos para tentar abrir a porta.
Se tem mão... tem corpo!
Olhei para baixo, para as pernas. Está tudo aqui, só de cueca, mas tudo aqui. Passei as mãos pelo corpo, esfreguei uma na outra, toquei no rosto. Não me lembrei de olhar dentro da cueca, confesso que não me passou pela cabeça. Voltei a olhar para o espelho. Tudo em ordem, eu estava na cama, coberto e...
— E... o quê?..
É... o quê?...
— O quê é? — A persistente resposta, aquela que não me agradava nem um pouco, voltou, e, dessa vez, mais forte e intensa.
Eu morri! Por alguns segundos, fiquei apenas com aquilo em mente. Por várias vezes tentei falar e aceitar o óbvio, mas em vão. Eu praticamente me recusava a pronunciar e, muito menos, aceitar.
Tenho que tentar. Vamos lá:
— EEuu... eesstouu... mmorto! Consegui!
Tudo parecia mais fácil agora. Olhando para o outro corpo, o da cama, eu já não tinha certeza de que ele respirava. Eu precisava me aproximar para ter certeza, mas tenho pavor a defunto. Nem morto.
— Eu tenho que ser prático — mas começo a duvidar de ter alguma prática nisso. Vá para a luz, vá para a luz. — Não que eu não queira, mas, desculpe-me, não vejo luz alguma — respondo aos meus próprios pensamentos, tentando ser prático.
Caminho, quer dizer, acho que caminho até a janela, se bem que a impressão é que a janela veio até mim. Olho para baixo. Tenho vertigens olhando a rua, estou no décimo andar, e é a primeira vez que me aproximo daquela janela.
Não estou com tanto medo assim.
— Acho que a morte me fez ficar muito mais corajoso. — No íntimo, eu devia estar crente que um tombo, mesmo daquela altura, não me faria mal algum; não no estado de agora. Corajoso, sim; mas e daí. — Aproveita o momento de coragem e pensa — de fato havia muito em que pensar.
Meu colega de apartamento, João, vai ter uma surpresa daquelas. Hoje é o meu dia de preparar o café da manhã, uma regra simples: só um banheiro, o que acorda primeiro prepara o café, enquanto o outro toma banho e se apronta, sempre revezando, um dia um, outro dia, o outro.
Vai entrar no quarto xingando, como de outras muitas vezes, por eu ter perdido a hora novamente.
— Seu irresponsável, assim não dá — podia até adivinhar as palavras.
Que surpresa ele vai ter! Queria ver a cara dele.
— Bom, acho que vou ver... estou aqui... não sei para onde ir.
Lembrei-me de ter lido alguma coisa sobre ajuda espiritual no além. Não era muito ligado nessas coisas. — Não era?! — Eu tinha usado o termo no passado, e percebi.
— Justo eu?
Só espero que sejam mais responsáveis do que eu. Eu vivo esquecendo compromissos e perdendo horários.
— Ou... vivia!
Comecei a pensar em minha família, e isso me trouxe tristeza. Pela primeira vez... tristeza. Eu estava mesmo triste.
Todos os esforços dos meus pais para que eu pudesse estudar na capital. Os gastos. A distância. Tudo.
— Tudo jogado fora por uma porção de carne e um gole de bebida. É certo que não somente uma porção, e, muito menos, um gole. Muitos... e várias vezes. — Não queria mentir para mim mesmo. Todas as festas e porres. Acho que me lembrei de todas e todos.
Minha mãe e o choque com a notícia.
Minha namorada.
— Quem vai ficar com ela? — Um desfile de pretendentes foi me deixando com raiva. Deixei de lado.
Minha irmãzinha... tadinha. Quatro aninhos, e já vai ter que enfrentar uma barra dessas. Ela é muito apegada comigo.
“O Charles não vai mais voltar? Eu nunca mais vou ver ele?”
Eu podia ouvir e ver a carinha de choro dela.
Comecei a chorar também.
Foi quando eu notei que o meu corpo, o que estava deitado na cama, vertia lágrimas pelos cantos dos olhos.
Aproximei-me.
— São lágrimas — e estiquei o braço para tocá-las.
Ao tocar o corpo fui praticamente sugado para o seu interior.
Eu tinha a certeza de estar acordado, mas não conseguia mover nenhum músculo. Aos poucos consegui abrir os olhos e, em seguida, levar um dos braços ao rosto. Eu estava mesmo chorando.
— São lágrimas!
Consegui rir, primeiro, internamente, e, depois, senti os músculos da face se descontraindo. Eu estava rindo. E já podia me levantar. Sentei na beirada da cama... e fiquei pensando.
Pensando em tudo isso.





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Tammy Marinho

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MensagemAssunto: Re: INFERNO INTERIOR   Dom Jan 25, 2015 11:50 am

Uou!


Depois das "Visitas do Natal" em Dezembro, pensei que tu não mais me surpreenderia (não se ofenda com tais pensamentos, eles são consequências da qualidade do conto e não um questionamento de vossa capacidade.)

Então cá vim eu, ler o Inferno Anterior.
Não nego que o texto em muitas partes foi confuso (presumo que seja a intensão) principalmente visualmente, e eu não conseguir ter uma visão clara das cenas. Isso me incomoda um tanto, não nego. Me sinto perdida, mas se pensarmos que esse é o pensamento do protagonista - essa confusão mental. Então essa confusão do leitor é um trunfo.

Mas esse conto foi o que melhor me trouxe a angústia e tensão que eu esperava no subgênero.
E o fim também me foi satisfatório.

Então meus mais sinceros parabéns.

E espero vê-lo muitas vezes mais.
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MilaCR



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MensagemAssunto: Re: INFERNO INTERIOR   Dom Jan 25, 2015 11:57 am

Olá!
O suspense sempre nos evoca o visual. Vi isso no teu texto, mas confesso que gostaria de sentir mais a tensão emocional (falo isso pq recebi esse primeiro toque do meu leitor beta). Também gostei do uso da primeira pessoa. Não sei se pelos mesmos motivos que eu, porém, confesso que a primeira pessoa no gênero suspense é uma sensação emocionante, ajuda o leitor a se envolver no contexto.
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Vinícius Tadeu



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MensagemAssunto: Re: INFERNO INTERIOR   Dom Jan 25, 2015 12:44 pm

Tammy,
a falta do seu texto em Janeiro deixou a disputa no mínimo desinteressante.
Sempre precisa e gentil nos comentários, de fato o texto é para deixar confuso o leitor, até porque nenhum projetor trabalha no campo do real, mesmo sabendo ser, preferindo retratar as experiências como sonho, pesadelo, ou algo mais (sem especificar o quê).
Quanto ao "fim", bom, o fim nesses casos é acordar; embora nem sempre.
Obrigado por ler o texto e pelos seus comentários.
Estou meio em falta com o grupo e não pude ler todas as publicações de Fevereiro, portanto, não vi se você já publicou o seu, se não, espero que o faça logo; estou ansioso.
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Vinícius Tadeu



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MensagemAssunto: Re: INFERNO INTERIOR   Dom Jan 25, 2015 12:56 pm

MilaCR,
Obrigado pela leitura e comentário.
As emoções se tornam confusas quando nos deparamos com algo que foge ao nosso conhecimento. Experimentamos uma fruta estranha com certo receio; um comida exótica com medo; um relacionamento novo com "um pé atrás". É normal, o novo precisa ser experimentado e provado.
A situação relatada em Inferno Interior é nova para muitos leitores, mas aqueles que já vivenciaram situações semelhantes conseguiram captar um certo "realismo" no texto.
Espero o seu conto de Fevereiro (se você ainda não publicou).
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MensagemAssunto: Re: INFERNO INTERIOR   

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