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 Memórias Reescritas

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MilaCR



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MensagemAssunto: Memórias Reescritas   Qui Jan 15, 2015 7:12 pm

Meu coração bate aceleradamente como se quisesse sair do meu tórax. Pupilas dilatadas. Respiração ofegante. Aconteceu de novo.
A luz se acende e meus olhos ficam ofuscados, três pessoas entram no recinto, então percebo que quem gritava era eu.
          A enfermeira Angela aparece. Ela é a última pessoa que eu queria que estivesse ali. Angela é uma mulher forte, enorme como um armário e mal-encarada. Ela está acompanhada de mais dois enfermeiros igualmente grandes.
          Continuo a gritar incessantemente. Ela me manda calar a boca e logo sou rendida pelos dois brutamontes. Injeta algo em minha veia e a última coisa que meus olhos azuis enxergam é o sorriso sarcástico do meu Anjo da Morte. Sei o que vai acontecer, eles vão me torturar. De novo.
          Assim era a minha rotina na Colônia Psiquiátrica St. Louis. Sempre quando eu tinha as minhas crises, era torturada incessantemente. Ser considerada louca implicava em não ter vontade própria. A Colônia era a minha casa há 4 anos.
Antes, eu morava numa mansão num bairro sofisticado com uma piscina enorme, um salão de jogos e um quarto tão grande quanto alguns apartamentos. A Colônia Psiquiátrica era uma casa correcional. Como fui parar lá? Cometi um crime abominável e imperdoável.

         Meu nome é Anastasia Klain. Tenho dezenove anos e sou estudante de Psicologia. Resolvi trilhar esse caminho para entender a complexidade humana, talvez resultado de anos de isolamento social. Por isso, minha paixão são as motocicletas. Tenho uma Harley-Davidson, a Invocada, que consegui comprar depois de muito pedir ao meu pai. Minha mãe dizia que eu o manipulava.
           Meu pai era o cirurgião das grandes estrelas. Ganhava a vida colocando plástico nos peitos das madames. Minha mãe Charlotte era arquiteta. Ela planejara a casa onde morávamos, com conceito orgânico e tudo o mais. Era outra que só atendia ricos. Diziam que nós éramos parecidas, o que ela negava como se fosse uma ofensa. O que era estranho, já que ela se identificava muito com Anna, a minha irmã gêmea.
           Sim, eu tinha uma irmã gêmea. Mas diferente do que todo mundo pensa sobre gêmeos, eu e Anna éramos completamente opostas. Anna era uma boa moça: comportada, educada, queria ser médica. Fazia caridade no final de ano, abraçava criancinhas e dizia que era virgem.
           Naquela época, eu gostava de apostar corridas. Ganhava alguma grana com isso, nada demais, mas o suficiente para fumar um baseado.
           - A gente podia pegar sua moto e sair pelo mundo. – me dizia Ingrid. Ela era uma ruiva radical, de pele clara e corpo franzino – Eu, você e o Oliver... Seríamos livres como o vento.
           Seria realmente perfeito. Mas, como não podíamos sair pelo mundo, pelo menos podíamos ficar no meu quarto. Nós três. Formávamos um trio interessante. Oficialmente, Oliver, um sujeito cabeludo que fumava como locomotiva, era o meu namorado. Mas depois que eu conheci a Ingrid, vi que poderia fugir de todos os padrões. Oliver tinha uma boa pegada, era um selvagem no sexo. Ingrid era delicada e doce. Não conseguindo escolher, optei pelos dois. E formávamos um trio bem resolvido.


            Acordo. Estou na solitária novamente. Um quarto acolchoado para evitar que eu me machuque, uma camisa-de-força. Alguém abre a porta e sou retirada de lá. Mas não por muito tempo, logo voltaria ali.
           - Sem mentirinhas, Klain, senão já sabe – um dos enfermeiros trogloditas amassa o punho na palma das mãos, me ameaçando. Quando eu recebia meu único visitante, denunciava os maus tratos que me ocorriam naquele manicômio. Meu rosto estava sempre arranhado, colecionava hematomas pelo rosto, às vezes desconfiava até de violência sexual. Porém, todas as minhas tentativas eram em vão e a cada vez, as punições eram piores.
           Um vidro me separa de meu visitante. O doutor Peter Siederack era meu único amigo e meu único contato com o mundo exterior. Foi meu advogado de defesa num árduo processo criminal.
           - Você me parece muito mal, Stasi... – dizia o doutor Siederack, analisando todos os meus hematomas e o sangue coagulado no canto da minha boca – Está tudo bem?
           - Alguma novidade sobre o processo? – Mudo de assunto. Não é mais produtivo falar sobre as surras que levo no manicômio. Apenas faço o possível para me defender.
           - A próxima audiência está marcada para semana que vem. – informou Siederack – E vou ser sincero com você, Stasi... Permanecer na Colônia é a melhor das possibilidades.

           O café da manhã de minha casa parecia um comercial de margarina enquanto papai estava à mesa. Cativante, ele fazia piadinhas com os nossos sonhos enquanto tomava seu café amargo. Mamãe bebericava alguma combinação estranha, que ela dizia ser suco, enquanto Anna arrumava frutas na mochila cor de pêssego. Assim que papai saía, a maré virava. Mamãe e Anna se fechavam num tipo de clubinho particular. Eu, a estranha, ficava de fora. Nesses momentos, eu aproveitava para sair, mesmo que aquela não tenha sido a minha hora de aula. Mas naquele dia, mamãe pediu que eu não me movesse.
           - Anastasia, há muito tempo eu desisti de te transformar numa pessoa decente. – Mamãe era perita na arte de desprezar as pessoas como se elas não fossem nada. Decente para ela, leia-se “Igual a Anna”. – Seu pai está se preparando para se lançar na política e pessoas como as que você costuma andar estão vetadas da minha casa!
           - Você está falando do Oliver e da Ingrid?
           - Você pode se deitar com quem quiser e usar o que você quiser. Mas você não tem o direito de interferir na carreira pública de seu pai. Não quero mais essa escória dentro da nossa casa, estamos entendidas?
           Bato na mesa com violência. No fundo, sabia que era verdade. Enquanto não me livrasse daquela família jamais seria feliz.
           - Você é o inferno que eu vivo todos os dias – esbravejei. Estava sentindo isso há muitos dias.


        Havia poucos lugares que os enfermeiros não vigiavam no Saint Louis. Um deles era um pequeno salão que dividia as alas. Costumava ir lá para pensar. Era meu esconderijo secreto. Certo dia, porém, para a minha surpresa, havia uma garota de cabelos escuros lá, desenhando.
Assim que cheguei perto, ela segurou meu pulso com firmeza. Rabiscava cada vez mais rápido. Vi que era uma desenhista tão prolifica quanto eu. Mas a menina me machucava cada vez mais.
       - PARE, PARE...
Meu pulso formigou até sangrar. Enquanto isso, a moça desenhava cada vez mais rápido. Então, ela olhou para mim, e por meio de seus olhos vi o quanto era uma anormal.

        Papai ultimamente passava horas no Comitê, em reunião. Quando não estava lá, trancava-se na sala com seus correligionários, entre eles, nosso advogado Peter Siederack. Ele foi o principal incentivador de papai para tentar a carreira política e se empenhava ao máximo em fazer dele o candidato do partido.
Às vezes, eu e Anna participávamos das reuniões. Papai dizia que queria ouvir o ‘
“espírito jovem”. Eu gostava de dar muitos palpites, porém Anna era um pouco mais calada. Desconfio que não ligava muito para mim.
Anna era uma filha perfeita, mas eu sabia que ela possuía pontos fracos. Vez ou outra, eu tinha dó dela. Se não se esforçasse tanto para ser o prodígio da família Klain, quem sabe seria mais feliz?
      - Cansei das suas intrigas e fofocas! - um dia, peguei Anna pelo braço, enquanto subia a escada. Você está sempre querendo fazer a minha caveira aqui em casa!
      - O que você queria trazendo drogados e lésbicas para dentro de casa? Um prêmio? - Apenas comigo Anna revelava sua verdadeira face: a de uma patricinha nojenta e preconceituosa.
      - Se você causar intriga de novo… eu...
      - Vai o que, Stasi, vai me matar?
Fiquei com o dedo em riste, antes que falasse alguma bobagem. Mas não nego que de repente, Anna poderia sofrer um acidente na escada da minha casa… parecia longa o suficiente. Entretanto, eu tinha outras armas.
      - Vou contar para o papai do seu caso com o Peter. - ameacei. Anna ficou mais pálida do que sempre fora. Eu havia tocado em sua ferida. - Pensa que nunca notei seus olhares para ele?


       Peter veio me ver novamente. Dessa vez, não estávamos separado por uma tela de vidro, e sim, poderíamos conversar numa sala que o manicômio reservava para quem aguardava  julgamento, como eu. Todas as vezes que iria falar do julgamento, eu tinha crises. Me cortava, me feria. Ia parar na ala médica. Tinha dúvidas se era adequado permanecer numa colônia psiquiátrica, eu não era louca. Mas quando tinha a oportunidade de provar o contrário, eu tinha certeza que ali era o meu lugar.
Antes de ver Peter, encontrei-me com Cláudia. Ela estava sentada, olhando papéis, possivelmente a minha ficha com várias tentativas fracassadas de me considerar uma pessoa normal.
O que quis dizer com esse desenho?
Olhei para o desenho e reconheci cenas tragicamente familiares. Diria que era meu se não tivesse visto outra pessoa desenhando. Mostrava um casal esfaqueado. Morto em sua própria cama.
       - Não desenhei isso…
       - Anastasia… Foi encontrado com você… Eu reconheço seu estilo de desenho, suas nuances… Por que o pintou com seu próprio sangue?
       - Com meu sangue? Juro que não fiz isso, juro que não fiz! - eu estava cada vez mais confusa… sabia que não tinha desenhado, entretanto, Cláudia tinha razão. As mesmas marcas gráficas. - Foi uma garota, uma garota de cabelos escuros.
- Cláudia me olhou desconfiada. Eu também desconfiaria da minha fala. Mas sei que não sou louca. No fundo, ela compartilhava da mesma opinião de Peter: a de que era mais conveniente e seguo ficar num manicômio judiciário (embora eu odiasse Saint Louis) que numa cadeia comum.
       - Olhando esse desenho, tive essa impressão. A de que eu sou uma quarta pessoa além do assassino, como uma testemunha.
       - É uma projeção, querida… É normal… Você não estava pensando racionalmente quando assassinou seus pais.
       - Sim, mas… - refleti sobre todas as sensações. Olhei de novo para o desenho, cheio de detalhes que só alguém com uma forte memória conseguiria lembrar. Detalhes como luz e volume eram tão vivos quanto os de um filme. - Como aquela jovem sabia de todos os detalhes?
Peter entrou logo depois. Ele devia estar feliz com a minha crise. No fundo, não tinha mais esperança de reverter a minha pena em regime fechado comum. Ele também acreditava na minha loucura e eu, a cada dia, passava a acreditar mais. A dra. Cláudia saiu. Então, Peter começou a repassar a mesma história que eu ouvia todas as vezes. A história de como matei minha família a sangue frio.
Lembro-me que era de noite e eu saíra do meu quarto para fumar na varanda. Chovia desde cedo e os telefones ficaram mudos. A energia elétrica foi cortada por uma árvore que caiu na entrada da propriedade, nos isolando do mundo. Os geradores, por algum motivo, não funcionaram, e meu pai mandou todos os empregados se recolherem para não haver incidentes.
      Minha mãe estava particularmente bonita naquele dia. Usava óculos quadrados e grossos e um lápis no cabelo. Trabalhava num projeto de um shopping. Anna estava na sala, lendo. Usava um vestido curto que deixava suas coxas pálidas aparecerem. Papai estava na mesma sala conversando com Peter, que não conseguia parar de olhar para a Anna. Eu, enojada com o flerte de minha irmã gêmea e  do melhor amigo de nosso pai, decidi subir para o meu quarto e procurar algo de útil para fazer.

       Os meus pais dormiam. Abri a porta do quarto de mansinho, para não haver barulho. Havia uma faca na minha mão, a lâmina reluzia por causa da luz dos relâmpagos. O meu pai foi o primeiro, pois podia reagir. Desferi uma facada contra sua gorda pança e depois duas no pescoço e uma no rosto. Mamãe acordou assustada e tentou lutar comigo, tentou agarrar meu pulso, mas me livrei e dei-lhe um golpe no peito. Neutralizados, desferi facadas para conferir, dez a quinze facadas em cada um. Enquanto eu me levantava, coberta de sangue dos meus genitores, senti que havia alguém me observando.
       Anna estava parada em estado de choque. Depois que viu minha ira assassina, correu em direção às escadas. Eu era mais rápida, pois Anna tinha dificuldade em correr. Eu a alcancei na sala, onde ela, sem saída, me agarrou pelo pescoço.
       Revidei. Na batalha de fôlegos, a faca caiu. As duas ensopadas de sangue, contaminadas pelo crime da outra. Peguei a faca caída, mas Anna pulou em cima de mim novamente, eu não sabia da imensidade de sua força física. Antes que soltasse a faca de fraqueza, e ela me matasse, cortei o pescoço dela, com um rápido golpe.

       A fórmula era certeira. Passaria mais uns bons anos no manicômio judiciário cercada de gente que acha que é o Napoleão  se dissesse que era louca. O laudo da dra. Cláudia confirmaria isso. Desta vez, além de me ferir, eu tinha amigos imaginários.
      Quando cheguei em meu dormitório, a menina estava lá de novo. Sentada em minha mesa, ela desenhava e usava minhas coisas. Mandei que saísse, mas ela continuava lá. Então, me aproximei com o intuito de ver o que desenhava. Meu pulso doía, o sangue continuava a jorrar da ferida aberta. A curiosidade era maior… algo me dizia que deveria ver.
      A minha surpresa era a de que não era uma menina. Era uma mulher de meia-idade, mas incrivelmente parecida comigo. Vi que ela possuía uma pilha de papeis na minha mesa.
      Nunca acreditei em doppelgangers, viagens do tempo, multiversos, fantasmas ou qualquer coisa que seja. Porém, ao ver aqueles desenhos, apostei minhas crenças.
      Assim que peguei a pilha, folheei as páginas. Na velocidade ideal, elas formaram um filme em animação. O vermelho do meu sangue no papel era igual ao jorrado naquela noite. Estranhamente vívido, pulsante, berrante, como se restasse muita vida quando eu as retirei. Na última folha, um autorretrato da mulher mais velha. Ela se sentava no parapeito da janela, contemplando a chuva que caía e a liberdade que não tinha, exatamente como eu fazia agora. Vinte e cinco anos de solidão, escrevera. Não acreditei, então dei uma olhadela para o joelho dela a fim de ter certeza.
      - Você… sou… eu? - eu não queria, mas gaguejava. Como eu disse, jamais acreditara nisso, mas a cicatriz no joelho, fruto de um acidente de moto e que me deixava mancando vez ou outra estava ali. - Mas, como, por que? Eu sou louca?
A outra eu balançou a cabeça, negativamente. Tirou das vestes um papel muito amassado. Pelo timbre, eu reconheci. Era o comunicado da minha sentença dali a dois dias: eu seria condenada a passar o resto da minha vida num manicômio judiciário. Então, eu entendi o seu propósito de estar ali. Eu ainda poderia ser salva.

Quatro anos depois, lá estava eu no Tribunal de Justiça novamente. Logo ao sair, escoltada, ouvia novamente os gritos de “Assassina!”, “Justiça!” e outros piores que sugeriam conexões com o demônio e coisas asssim. A mídia também estava lá para contar o desfecho da garota rica que matou a própria família a sangue frio. “Princesa da morte” ou “Anjo da Morte” eram as minhas alcunhas favoritas.
O julgamento, que seria definitivo, começou com atraso. Grupos de civis revoltados queiam invadir à força o tribunal, exigindo a minha condenação à morte, ou no mínimo, prisão perpétua. Aquelas pessoas, como meu advogado, acreditavam que a vida num manicômio judiciário era perfeita. Só eu acreditava estar no inferno.
Essa foi a tese sustentada pelo meu advogado, Peter Siederack, no meu primeiro julgamento. O promotor, um homem robusto, de fala apoplética e tom grave discursou por mais de 2 horas falando o quanto eu era brutal, dissimulada e fria. Quando chegou a vez da defesa, me levantei antes do meu advogado.
       - Solicito meu direito de autodefesa, assim, destituo meu advogado. - minha fala pareceu chocar a todos: juíza, o promotor, o público e até os jurados. Siederack olhou para mim com cara de espanto.
      - Você só deve estar louca, Anastasia!
      - E qual o motivo para destituição de seu advogado, senhorita Klain? - quis saber a juíza.
      - Este homem sempre teve um propósito muito claro, meritíssima. - então, mirei Siederack, que estava amedrontado. - Este homem vem tentando me manter a toda custa em um manicômio judicial, mesmo sendo eu inocente.
O público soltou um “oooh”, seguido de gritos de protestos de alguém. Uma mulher gritou a todos pulmões “Assassina!”, então vi que era uma prima de minha mãe. Minha avó materna também estava lá, olhos marejados, foi ela quem mandou a prima se calar.
      - Este homem é a mente doentia, asquerosa e nojenta por de trás deste crime horrendo.

       Os desenhos da minha eu do futuro revelavam com riqueza de detalhes todos os acontecimentos daquela noite. A princípio, achei que fosse mais uma ideia de minha cabeça, mas não. Pesquisei, então, na biblioteca da Clínica sobre um conceito que eu vira uma vez na faculdade: “gaslightining”, um tipo de manipulação psicológica que outra pessoa faz com que você duvide de suas próprias percepções. Minha memória fora alterada, mas eu não estava louca. Jamais estive.
      Naquela noite, eu subira para o meu quarto e fui ler. A luz acabou bem na minha parte favorita da história. Então, fui dormir. A casa mergulhou na mais completa escuridão às 10 em ponto, ou isso que marcava meu relógio de ponteiro. Levantei àquela hora para buscar água e tomar meu antiinflamatório. Uma semana atrás eu recebera alta do hospital onde me internei depois de sofrer um acidente de moto.
Passei pela porta do quarto de Anna, a fim de ver se havia luz. Minha irmã dormia de luz ligada e se houvesse energia, certamente o quarto estaria iluminado. Mas Anna não estava no quarto. Espiei de novo na volta da cozinha, com meu copo d’água na mão. Alguém tinha gritado. Será um ladrão? Com o susto, quebrei o copo na mão, e estilhaços de vidro se espalharam perto da escada.
O grito parecia vir do quarto dos meus pais. Sem pensar duas vezes, entrei. Fiquei paralisada com a cena. Meus pais mutilados e sangue colorindo de vermelho os lençóis de linho egípcio dos quais mamãe tanto se orgulhava. Por um instante, vi meu vulto empunhando a lâmina reluzente pela luz do luar banhada em sangue. Mas não era eu. A fonte da carnificina era minha própria irmã, Anna.
Quando ela se virou pra mim e viu minha expressão de horror, senti que seria a próxima. Então corri em direção às escadas. Anna era mais rápida, pois eu tinha dificuldade em correr. Ela me alcançou na sala, onde eu, sem saída, a agarrei pelo pescoço.
Revidei. Na batalha de fôlegos, a faca caiu. As duas ensopadas de sangue, contaminadas pelo crime da outra. Peguei a faca caída, mas Anna pulou em cima de mim novamente, eu não sabia da imensidade de sua força física. Antes que soltasse a faca de fraqueza, e ela me matasse, cortei o pescoço dela, com um rápido golpe.


        Tudo fazia parte de um plano no qual todos foram vítimas, inclusive Anna. Depois que os policiais reiniciaram a investigação sem viés, perceberam que o blecaute fora provocado. Eles também confirmaram que a minha versão era plausível. Sem a presença da mídia e da opinião pública me demonizando, as lacunas do processo anterior foram preenchidas. O meu sono repentino foi causado por um coquetel de drogas, convenientemente escondido nos meus antiinflamatórios; Siederack, que fora o primeiro a chegar na cena do crime, aproveitou para forjar provas, a fim de me incriminar. Como eu desconfiava, o advogado tinha um romance com minha irmã e então arquitetou a morte de meus pais usando Anna.
        Meses depois, Siederack confessou que mandou que Anna assassinasse para herdar seu posto político dentro do partido. Anna foi persuadida por ele que não receberia um centavo de herança, graças a um testamento fajuto forjado por Peter. Tudo daria certo, se não fosse por mim. Me convencer de minha loucura e me manter eternamente no Saint Louis foi o Plano B de Peter.
Siederack foi condenado à prisão perpétua pelo assassinato de minha família, por falsificar provas e por me manipular psicologicamente. Eu fui absolvida do assassinato de Anna - sim, ainda voltei ao tribunal por isso - por motivo de legítima defesa.
Ainda desenho, mas só  coisas alegres. Algumas vezes eu tento me lembrar do meu outro eu. Sua pele macilenta e pálida, sua postura doente, seus cabelos sem vida, coisas de alguém condenada a passar o resto de sua vida num hospício. Se ela me fez mudar o destino, então ela não existiria mais? Seu sofrimento era tamanho que preferia não existir a me dar uma segunda chance? Eu não sei. Mas sabia que seria sua eterna devedora.
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Tammy Marinho

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MensagemAssunto: Re: Memórias Reescritas   Dom Jan 25, 2015 10:01 am

Mila...

Eu tive enorma e alegria quando soube que escreveria esse mês, sabia que vinha algo bom pela frente e acertei.

Parabéns pela trama muito bem amarrada.
Uma história inteligente e bem construída... onde o paranormal flerta com a loucura.
Esse flerte inicialmente me deixou confusa. Porque eu captava uma personagem esquizofrênica e não atormentada pelos fantasmas do seu próprio futuro.

É muito interessante o contexto estrutural em que as memórias falsas foram inseridas com base nas verdadeiras, casando muito bem uma com as outras...

Entretanto... Embora a trama me satisfaça, e eu reconheça o suspense presente eu senti falta da tensão.

Pela temática e subgênero eu esperava me sentir mais tensa. O que não aconteceu.

De toda forma, meus parabéns...

E até breve.
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MilaCR



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MensagemAssunto: Re: Memórias Reescritas   Dom Jan 25, 2015 11:32 am

Oi Tammy,
Obrigada pelos teus comentários, sempre lúcidos e sensatos.
Eu confesso que a minha dificuldade em trabalhar com suspense é que nesse ponto me inverto: sou visual. A minha pretensão era romper a narrativa linear utilizando recursos gráficos (sim, o itálico) para separar o real do ilusório. Eu quis trabalhar outra parte de suspense, que seria o "ela está ou não louca", apelando para a primeira pessoa, de forma a suprimir o narrador onisciente.
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