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 O causo do Tião da Lua

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MilaCR



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MensagemAssunto: O causo do Tião da Lua   Dom Jan 25, 2015 9:13 am

Diziam que o véio Tião da Lua, aquele que morava pelos lados dos brejos era biruta da cabeça. Aquele papo de acreditar em extraterrestre, ou “homenzinhos da lua”, como ele nomeava começou foi com ele. O povo metido a esotérico da cidade grande gostava de ir na cabana de Tião ouvir as histórias. Foi por causa de Tião da Lua que Paraíso da Terra tinha aquele nome e também por causa dele que a cidade ficou conhecida por ser aeroporto de ET.
Antes de ter esse nome, Paraíso da Terra se chamava Recanto do Sol por conta do ouro e do diamante retirado dali. Muita gente enricou nos tempos áureos da cidade com o garimpo, mas muita gente perdia dinheiro da noite para o dia. Contavam a história de dois garimpeiros vindos do norte, o Jão e o Neto que “bamburraram”, ou seja, tiraram a sorte grande no garimpo, não uma, mas duas vezes. O Neto logo virou coronel, quando se casou com a filha de um dos grandes da cidade. O Jão gastou quase tudo com bebida e mulher antes de se casar com a filha do dono da padoca. Com o dinheiro restante, comprou uma terrinha pra deixar pros filhos.
A Era do Ouro em Recanto do Sol logo terminou quando a ganância do homem fez a Mãe Terra secar. Houve uma debandada de gente da cidade, ficando só uns gatos pingados. A estrada que passava em frente foi desativada - sem ouro e diamante, que serventia aquele fim de mundo haveria de ter?
Com todo mundo deixando a cidade, o Neto comprou as terras do povo baratinho e transformou numa imensa fazenda de gado. O único que não se vendeu foi o Jão, pois ele mesmo tinha aprendido na vida que dinheiro na mão de pobre é vendaval.
Passados alguns anos, Recanto do Sol foi caindo mais no esquecimento. O Jão tinha morrido e deixado sete filhos. Um deles era Zé das Antas, que tinha esse apelido porque costumava caçar anta para a mulher fazer chapéu com o couro. Com o tempo, Zé foi ficando sozinho, pois os irmãos, desgostosos com o pouco futuro no interior, foram para a cidade grande. Zé foi o único que ficou, pois não ia deixar de ser seu próprio patrão, pra “limpá o penico dos rico na cidade grande”.
Zé casou com dona Amélia e teve seis filhos. Todos eles morreram quando a cidade foi invadida por um surto sucessivo de doenças: sarampo, coqueluche, varicela, tifo, rubéola. Todo mundo, inclusive os filhos do coronel Marcílio Campos, filho do Neto, teve. O negócio é que filho de rico ia pra cidade grande consultar com o doutor. Os dos pobres agonizavam até Deus ter dó e levar as almas deles. O médico só chegou na cidade no último surto, o de rubeóla, no qual os filhos dos pobres não sofreram tanto.
Os filhos de Zé morreram cada um dessas doenças, sendo que dona Amélia teve rubéola quando o menorzinho, Sebastião estava na barriga. O menino nasceu meio retardado, ou como o doutor dizia, que a rubéola em dona Amélia causou “efeitos colaterais”.
Mesmo com o tempo passando, as coisas não melhoravam para Recanto do Sol. Já tinha escola e tinha posto médico, mas tudo era do coronel Marcílio Campos. O povo só tinha emprego na fazenda dele ou trabalhando nos negócios dele. E quando precisava de uma coisa, gastava nas vendas dele, ou seja, o dinheiro sempre voltava.
Zé das Antas era o único que escapou um pouquinho disso. Tinha seu roçado, criava porco, galinha. Mas o coronel queria as terras de Zé para ter a beira do rio pro gado pastar. O Zé não vendia por nada. Então, o coronel se aproveitou do ponto fraco do Zé:a “mardita” cachaça. Ele mandava seus peões pagarem uma branquinha pro Zé todo dia. Depois de um tempo, ele passava mais tempo na birosca que trabalhando, além de gastar mais dinheiro e se encher de dívida. Apesar disso, ele não queria o mesmo para o filho.
- Meu fi? Meu fi num vai ser pé inchado não! Meu fi vai estudá pra módi ser dotô e num mais baxar cabeça pra coronel nium! - repetia o Zé, enquanto virava mais um copo de cachaça.
Foi por causa da cachaça do Zé que teve a maior tragédia numa certa noite. Cheio de manguaça, o agricultor brigou com dona Amélia e tacou fogo na casa. As más línguas diziam que o Zé tinha queimado a mulher viva. O fato é que Sebastião ficou a Deus dará no mundo. O pequeno sítio foi arrematado num leilão pelo coronel Marícilio Campos, que levou a propriedade praticamente de graça.

Sebastião virou Tião da Lua, um moleque traquina que vivia de fazer bico tanto pro coronel quanto pro padre Bento. No começo, era “da Lua” porque era sonhador e não sabia o seu lugar. Ainda pequeno, o moleque virou protegido de Adelaide, filha mais velha do coronel, que ensinou Tião a ler e a escrever. Enquanto Adelaide morava na cidade, Tião não passava fome e tinha o que calçar e vestir. Mas foi outra coisa que Adelaide lhe fez que marcara para sempre o menino. Uma foto de gente estranha: uma mulher com barba, outra com duas cabeças, um homem que parecia um pássaro e outro levantando um carro, uma acrobata vestida de rosa… os olhinhos de Tião faíscavam de curiosidade.
- Isso é um circo, Sebastião! O circo é um lugar onde as pessoas vão e se divertem! Um dia te levarei.
- E o que tem no circo prá ter gente tão estranha?
- No circo tem magia, Sebastião, magia!
Então Tião cresceu com a ideia fixa de ir ao circo. Tanto gostava que guardara a foto consigo como um tesouro e todo os dias cobrava de Adelaide quando iam ao circo.
O apelido de Tião da Lua ganhou outro significado quando o menino começou a invocar com as estrelas. Um dia, o prefeito, seu Juraci, mandou construir uma sala de cinema na cidade. Fazia parte do plano de colocar Recanto do Sol no mapa de novo. O prefeito, que era cunhado do coronel Marcílio Campos, também mandou reativar a rodovia que tinha nos tempos dos avôs deles, quando Recanto do Sol era terra de garimpeiro. A reforma da estrada, em breve, ia chegar às portas da cidade.
O cinema era a coisa mais linda que aquela gente já tinha visto. Funcionava todo domingo, depois da missa da tarde e depois da missa da noite. Num desses dias, Adelaide levara Tião para ver um filme chamado “Guerra entre os Planetas”. O menino ficou fascinado com os etês: altos, pilotando naves enormes, vestidos em traje de astronauta.
- Madrinha, mas a senhora tem certeza que não tem etê nesse mundo, não?
- Deixe de besteira, Tião! Aquilo é um filme, é tudo de mentirinha.
E o menino ficava “encafifado” com o a história de ter extraterrestre. Não conseguia dormir só de pensar se um dia eles invadissem a Terra.
- Padre Bento, se os etês “atacar nóis”, que é que a gente faz?
- Pare de falar asneira, menino! Deus nos fez únicos para habitar a Terra.
- Mas se tivesse outro Deus em outra Terra não podia criar outro parecido “cum nóis”.
- Vá rezar um pai-nosso, meu filho! Aliás, reze um terço inteiro e peça pra Nossa Senhora tirar esses pensamentos pagãos!

O Tião apurrinhou a paciência de todo mundo com essa história. O menino jurava de pés juntos que tinha gente que nem a gente vivendo noutros mundos e que talvez estivessem querendo fazer contato. Então, o Tião se preparava. Fez uma caixinha de madeira com coisas que ele achava legal e queria que todo mundo na cidade fizesse o mesmo. Uns levaram na brincadeira, mas a maioria dizia sempre a mesma coisa.
- Esse menino não tem o que fazer!
- Deixe de bestagem, Tião, donde já se viu?
- Cabeça vazia, oficina do diabo!
- Deve “tá” é possuído pelo cão, esse menino!
- Se tivesse trabalhando, num tava pensando nessas “bobagem”!

E se o povo achava que era imaginação de Tião, a situação se complicou num dia em que ele botou a cidade inteira em desespero.
Era domingo. A última missa do domingo era a mais esperada porque depois teria a quermesse da igreja. Toda a cidade estaria lá: o coronel Marcílio Campos e seus filhos, as beatas, o Cabo Otacílio, o delegado Juarez, seu Tonho da padoca, Donana Costureira…
Eis que no começo do sermão, o menino Tião entra desesperado pela igreja.
- Padre Bento, o senhor tem que parar essa missa! - berrava Tião, apavorado.
- Mas o que esse menino quer?
- O mundo tá se acabando, padre! Acode que tá “vino” gente de outro planeta!
A fala de Tião causou rebuliço. Os mais valentes: o cabo Otacílio, o delegado Juarez e os peões do coronel foram lá fora ver. Enquanto isso, o povo queria saber mais detalhes.
- Eles chegaram numa máquina que nem a do filme, com aquelas roupa de astronauta! - contava Tião, imitando de forma caricata tudo o que vira. O povo ia arregalando os olhos. Até a mulher do coronel, dona Francisca, começou a ter um piripaque.
- Ai minha “nossenhora”, será que eles vão invadir a Terra, que nem no filme? - indagava alguém.
- Pois eu vou é prá minha casa, pra móde procurar jeito de ir simbora - disse o Felisberto, o balconista da farmácia.
- Mas cadê o prefeito Juraci nessas horas? - finalmente, alguém notou a ausência do prefeito.
- “Vala” me Deus! - exclamou Tião, e lembrou-se do filme, onde os etês capturaram o prefeito da cidade - Será que seu Juraci foi abduzido pelos etês?

Enquanto o povo esperava aflito na Igreja, os homens empunharam suas armas e foram atrás do etês. Os peões usavam espingardas, enquanto o delegado e o cabo iam à frente com seus relvólveres. Nem eles escondiam que tremiam feito vara verde.
As instruções de Tião, davam conta que esse povo tava perto da rodovia abandonada. E assim seguiram. Conforme Tião explicara, os estranhos estavam mesmo com máquinas gigantescas e uniformizados. No centro deles, estava o prefeito, seu Juraci.
- Ara! “Már” que é que é que o prefeito tá fazendo com esse “pessoar”? - quis saber um dos peões.
- Num quero saber! Vamo é meter bala!
Eis que o delegado baixa o cano da espingarda do peão. Então, ele percebeu o que ocorria ali de verdade. Não eram naves, eram imensas máquinas: retroescavadeiras, guindastes, caminhões misturadores. E não tinham sequestrado o prefeito, e sim, faziam negócios com ele. Os etês que Tião vira, na verdade, eram os operários da rodovia que finalmente haviam chegado perto da cidade.
Por semanas o povo virava as costas pra Tião da Lua. O padre Bento lhe obrigara a rezar uma novena - antes de fazê-lo ajoelhar no milho - pela peça que tinha pregado na população. Até Adelaide, que persuadiu o pai a não mandar dar uma surra no moleque, estava visivelmente chateada. Para o horror de Tião, a madrinha fora para o internato na cidade grande sem se despedir.
O povo fazia chacota de Tião da Lua. E foi aí que começaram a reparar na fama de retardado do menino. Mas, no seu íntimo, Tião nunca deixara de acreditar no que queria. E como um desejo dos céus ao ver tamanho sofrimento do menino, um dia Recanto do Sol recebeu uma visita há muito aguardada por Tião.
Com uma estrada ligando Recanto do Sol a algum lugar, enfim, o circo chegara à cidade. Tião os acompanhou correndo desde a virada da colina, que era onde a estrada se tornava visível. Dois caminhões traziam a trupe e os materiais do circo, outro encadeava jaulas móveis que traziam os animais. O menino ficara maravilhado, então, pela segunda vez.
No dia seguinte, Tião foi cedinho acompanhar a montagem da lona do Gran Circo Solaris. O espetáculo seria dali a dois dias, mas o menino estava afoito pela estreia do tão sonhado. Munido de sua fotografia sagrada, Tião conferia item por item. a mulher-barbada penteva sua barba como as moçoilas penteavam suas madeixas; havia o homem mais forte que Tião vira na vida, capaz de derrubar cinco, não dez, capatazes do Coronel Marcílio Campos com um só soco; uma garota, pouco mais velha que Tião, com o rosto tão deformado que ela parecia um pássaro; havia anões alimentando os elefantes e também duas cabeças de homem num corpo só, eles pareciam brigar por alguma coisa. Por fim, havia uma menina acariciando tigres como gatinhos mansos (e não as feras ariscas que são).
O menino, curioso, ficou embasbacado. Até que sua presença foi anunciada com um tropeção, chamando a atenção da pequena domadora.
- Você se machucarrrr?? Estarrrr bem? - Tião notou que ela falava estranho. Mas tinha os cabelos muito claros como o sol da manhã e os olhos azuis como a água mais pura do rio.
Seu nome era Catarina e ela era a coisa mais formosa que Tião já vira na vida.

Serelepe como ele só, Tião logo se prontificou a ajudar na montagem do circo. E isso foi bom, porque ele conseguia falar mais vezes com Catarina. Ela lhe dizia que viera de um lugar muito, muito longe, chamado Rússia e que lá as pessoas falam uma língua diferente do português.
- Ara, már é iguar aos etês que num sabe falar o brasileiro. - ao ouvir isso, Catarina arqueou as sombrancelhas. Depois que Tião lhe explicou sobre o filme e sobre sua crença em etês, a russa pôs logo a lhe explicar sobre OVNIS, sobre os planetas e tudo o mais que ela sabia. Tião ouviu tudo direitinho e cada vez gostava mais dela por ser tão culta e saber de tudo um pouco.

Além de montar a lona, Tião ajudava a comprar as coisas pra boia da trupe. A mulher-barbada, outra que veio de um lugar longe chamado Espanha, era quem cozinhava. Pra fazer a comida, ela punha sua imensa barba dentro duma touca e amarrava. A comida da mulher-barbada, que se chamava Conchita, era de comer rezando.
Tião logo fez amizade com todo mundo: o mágico Enrico e sua esposa e assistente Luzineide (que gostava de ser chamada de Stella); Ignacius, o homem mais forte do mundo; os gêmeos simases Ti e Pi, que viviam brigando, mas se reconciliavam logo depois; Pardal, a menina-pássaro, que matracava como uma; os anões palhaços Edgar, Marcus e Latus; Ciça, a mulher-foca… Tanta gente e convivendo com tanta alegria… Tião se perguntava se sua vida não estava mesmo destinada a viver com o circo. Afinal, sentia que estava entre seus iguais.
Antes da estreia do Gran Circus Solaris, Tião fez uma coisa que ele nunca tinha feito. Ele levou Catarina para conhecer “A Caverna”.
“A Caverna” era onde Tião “morava”. O menino tinha feito um grande lar com tudo o que ele recolhera na cidade: móveis, cortinas e tapetes velhos, até mesmo um radinho ele tinha. Tinha também uma despensa enorme onde Tião estocava comida: milho, feijão, arroz, carne-seca, queijo coalho. A água era fresquinha, a nascente do riacho era ali. Tudo isso porque, segundo Tião, os etês iam invadir a Terra.
- E aqui ninguém sabe donde é… Os etês não pode invadir aqui - dizia a ele a Catarina, que arregalava seus olhinhos azuis com a beleza do lugar.

Enfim, chegara o grande dia. A lona estava montada, os animais limpos e bem alimentados, todo mundo pronto. Tião era o convidado de honra e se sentia muito feliz porque na primeira vez na vida, alguém convidava ele pralguma coisa de bom grado. Todos na cidade estavam ali, incluindo o Coronel Marcílio Campos, com sua esposa e filhos menores. O prefeito suava como um porco frente à expectativa da nova atração que ele trouxera para a cidade.
Vitaly, o dono do circo e tio de Catarina, era o mestre de cerimônias, e prometeu uma “noite de alegria e descontração com aprontações diversas para a toda a família”. E assim foi até certo ponto da noite. O número de mágica de Enrico fez sucesso e Catarina parecia voar no trapézio. Os anões foram aplaudidos por suas trapalhadas e Ignacius arrancou suspiros das moçoilas mais assanhadas. Porém, o clima ficou mais tenso quando começaram as apresentações dos mais diferentes: Conchita, Pardal, Ciça e os irmãos Ti e Pi não foram tão bem recebidos como as atrações anteriores. Até que alguém, provavelmente o filho do prefeito, atirou uma pedra em Pardal, fazendo um ferimento enorme em seu nariz.
- Filha do diabo com cruz-credo! - gritava o rapaz. Os outros espectadores do circo o imitaram. Jogavam pipoca e amendoim no picadeiro, na direção de Pardal. A menina, sempre tão risonha, escondeu seu rosto de medo, vergonha e tristeza, tentando não ouvir os xingamentos mais indignos.
Então, Tião levantou-se e protegeu Pardal com seu franzino corpo, recebendo as agressões no lugar dela.
- Parem com isso, parem com essa mardade com a menina!
Em vez de pararem de jogar coisas, alguém pegou um pedregulho e atirou na direção de Tião e Pardal. Os outros retiraram Conchita, Ciça e os irmãos Ti e Pi do picadeiro, enquanto Catarina, angelical, escoltava uma aflita Pardal para os bastidores.
- Tacando pedra na menina, cês provaram que os verdadeiro monstro aqui são ocês. Que não consegue aceitar os outro pelo que eles são, bando de gente marvada! - gritva Tião, indignado. - Todo domingo vão prar missa, rezar pra Nossinhora e o menino Jesus, mas sempre tão aumilhando os pobre e os indefeso, cês é que não são digno de receber o povo do circo! Mas um dia cês vão pagar

Tião se sentia mais tranquilo. No fundo, ele também se sentia como o povo do circo, gente à margem da sociedade.
- Eu defendi ocês proquê… eu sou que nem ocês… Eu sou pobre, num tenho famia pra olhar pra mim. Ocês são a única famia que eu tive. - respondeu Tião, quando Catarina perguntara.

A segunda apresentação do circo foi cancelada. A cidade maltratou muito seus hóspedes quando zombaram de como eles eram diferentes. Mas Tião os acolheu em sua caverna e tratou deles bem. De água, deu de comer, deu cama limpa e confortável. E todos adormeceram longe das pessoas que judiaram deles. - Mas, como diriam os anciões, o castigo veio a cavalo. Melhor dizendo, veio em cavalos de aço.

Assim que todos retornaram a suas casas, rindo das aberrações humilhadas, as estrelas do céu piscaram de forma diferente. Quem tinha o olhar mais apurado, percebia que as estranhas luzes se moviam no céu e desciam até chegar à terra. Com o barulho, dona Maricota, que tinha o sono leve, foi espiar pela janela o motivo do rebuliço. A velha então, viu duas criaturas magrelas e transparentes como vidro. Ela, por achar se tratar do povo estranho do circo foi lá para dar suas lições de moral. Munida de vassoura, a velha bateu com o cabo na cabeça de uma das criaturas, mandando que elas fossem embora da cidade, “seus bando de filho do cão”. Porém, com um toque do dedo espiralado, a velha se desintegrou virando um monte de pó cinzento. Quem viu a Dona Maricota se ferrando foi seu Tonho da padoca que tratou de fechar as portas de casa e dizer um “crendeus pai”.
Logo, alguns na cidade teriam o mesmo destino de dona Maricota. Os etês desintegravam as portas de madeira com seus dedos e assim que eram vistos pelas pessoas, faziam isso também. Com os gritos, os vizinhos iam acordando e procuravam se esconder das tão temíveis criaturas. Houve quem se trancasse em casa e rezasse o pai-nosso, houve quem pegou a cruz e saiu atrás das criaturas do Diabo, em vão. Houve quem acreditasse em Tião da Lua. E não é que o sujeito estava certo? Afinal, o povo vindo de outro canto do universo tinha vindo para dominar a Terra! Depois de concluir isso, o povo foi todo em direção às velhas minas se acudir com o único que sabia da situação.
- Tião, só ocê pode nos sarvar dessa danação! - pediu Donana costureira, ao bater na caverna de Tião da Lua e relatar que sim, os etês estavam invadindo a Terra.
- Eu, como prefeito, ordeno que nos deixe entrar! Como parte da cidade, as minas pertencem ao povo de Recanto do Sol! - o prefeito, seu Juraci, mandara que João removesse a porta de pedra que ele fez para ninguém saquear seus bens.
O coronel Marcílio Campos, com sua mulher amendrontada e seus dois filhos, abriu caminho por entre o povo arrogante como ele só. Trazia na mão uma grande quantidade de dinheiro.
- Pois eu pago isso tudo para nos dar guarida! A mim e à minha família.
O povo reagiu frente ao egoísmo do coronel. Tião, se aceitasse o dinheiro, só deixaria ele, a mulher e os filhos entrarem, abandonando a cidade ao relento. Então, cada um foi fazendo a sua oferta. Até o Padre Bento tentou usar sua autoridade eclesiástica para se dar bem.
Ante a tantas ofertas e também ameaças, Tião olhava pesaroso para Catarina e o povo do circo. Menos de 24 horas depois, aqueles que tanto bulinaram sua família estavam lá, de joelhos, pedindo ajuda. Tião, por um instante, pensou em deixá-los lá, para pagar pela língua, mas fazendo isso, ele não seria Tião.
- Ocês tudo merece esse castigo dos etês pela mardade que fizeram com o povo do circo! Eu podia muito bem deixá ocês aqui fora pra virar comida de urubu! Mas eu não sou marvado como ocês são. Eu vou deixar ocês entrar, mas que fique bem claro, que aqui ocês são hóspede do meu povo do circo.
Então, Tião deixou o povo entrar e cada um foi se aconchegando como podia. Ainda tinha o povo de nariz em pé com medo do povo do circo, outros com vergonha. Catarina olhava lívida para Tião, certa de que ele havia sido muito correto consigo mesmo.

Não se sabe o que os etês queriam, nem quanto tempo durou a invasão. Eles deixaram para trás a maior bagunça, inclusive um pequeno módulo terrestre aparentemente quebrado. O padre Bento foi chamado para benzer todas as casas do povo morto. O povo do circo montou acampamento e se mandou.
Tem certeza de que não querrr virr com a gente? - perguntava Catarina. Ela gostaria muito que Tião se juntasse ao povo do circo e finalmente fosse livre.
Muito gradecido, mas não posso. Ainda tenho muita coisa prá enfrentá nessa cidade. - Tião resolveu ficar. Apesar de achar que o circo seria sua família, ele ainda acreditava que Recanto do Sol pudesse mudar e que o povo não seria mais submetido aos mandos e desmandos do coronel.

Tião cumpriu a promessa que fez a si mesmo, a de que tornaria aquela cidade melhor e mais justa e que nenhum homem seria mais molestado por ser pobre, preto ou diferente de alguma forma. O menino cresceu, estudou e se tornou uma força de apoio a quem não se submetia ao poder do coronel Marcílio Campos. Por causa dos etês, Recanto do Sol começou a receber muita gente de fora acreditando que aquele local era aeroporto de etês. No fundo, foi até bom porque o povo começou a ganhar dinheiro de verdade, e não ficou mais dependente do coronel Marcílio Campos. E assim, Recanto do Sol virou Paraíso da Terra.
Quanto aos etês, eles nunca mais visitaram a cidade. Mas o veio Tião da Lua ainda esperava, enquanto matutava com o povo da cidade grande, pelas duas coisas que mais queria ver em sua vida: etês e aquele povo estranho do circo.
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Tammy Marinho

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MensagemAssunto: Re: O causo do Tião da Lua   Dom Jan 25, 2015 10:52 am

E temos aqui um legítimo causo.

E embora eu não capte o subgênero.
Eu saio dessa leitura completamente apaixonada por essa nova vertente que vejo na tua narrativa. Tão natural e fluída que enche os olhos.

E confesso que até me emocionei no final do conto.
Mas eu sou sensível pra caralho...


Parabéns pelo texto. Pela crítica e pela magia com que conduziu os dois.


PS. Captei um errinho de digitação: "mulher-barbada penteva sua barba" falta um "a" em penteava.

E é isso... até bem breve.
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MilaCR



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MensagemAssunto: Re: O causo do Tião da Lua   Dom Jan 25, 2015 11:28 am

Valeu Tammy!
Eu queria escapar do suspense em circo abordando crimes. Então, deixei para o subtexto mesmo.
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MensagemAssunto: Re: O causo do Tião da Lua   

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O causo do Tião da Lua
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