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 Sacerdotismo

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Indy J

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MensagemAssunto: Sacerdotismo   Seg Jun 30, 2014 8:34 pm

Korine acordou com a fria brisa do ar que gelava suas entranhas e fazia as persianas de seu quarto rebelarem-se contra a própria parede de pedra que as continha.
Desperto, acendeu a lamparina de óleo à cabeceira de sua cama, uma construção de madeira reforçada com colchão e almofadas de pena de ganso, e se levantou ao negro da madrugada que lhe inquietara com suas canções geladas.
Abrindo a porta de madeira que separava seu quarto do santuário, Korine se pôs a pensar se deveria realmente visitar a câmara de seu Deus ou se era melhor que voltasse ao seu sonho, aquele pedaço de desejos manifestados em imagens, único espaço (mesmo que irreal, sabia) onde podia constituir uma família.
Mas não era inocente. Sabia suas responsabilidades. Era o último Sacerdote, último servente de Rhoros, a Vida, e era seu dever dedicar cada segundo a Ele. Ser acordado no meio da noite na verdade fora uma benção, mesmo sendo estranho seu sono profundo conseguir finalmente ser perturbado, pois poderia dedicar mais tempo ao Trabalho.
Desceu a escadaria circular de mármore que levava ao Altar Central, ponderando sobre os reais motivos do seu despertar, pois lembrava-se que, da última vez em que fora acordado, Rhoros tinha de lhe compartilhar um recado extremamente importante. Com isso em mente, apressou o passo e a descida, ansioso, e chegou onde queria, contemplando a grandiosidade extrema daqueles construtos.
O Altar Central era retesado por um gigante salão, uma extensa planície de mármore, marfim e pedra, com bancos de madeira distribuídos simetricamente e uma camada de pó que não era limpa já havia meses, encobrindo o tapete esmeralda com detalhes em dourado que levava ao Altar, de fato, que por sua vez impedia a passagem ao Grande Poço.
O Poço era um gigante buraco que, diziam as lendas, era infinito, e que guardava em suas profundezas o próprio Rhoros, ou assim ouvira dizer Korine, que pôs-se a observar de fato a construção que retesava seu real objetivo ali.
De fato, somente um Deus (ou uma centena de escravos) poderia ter conjugado aquela união de beleza, realismo e realeza que permeava o Altar Central.
Estátuas de diversas manifestações da Vida, esculpidas em bronze e pintadas em ouro e prata, cercavam a estante de livros sagrados e o pódio, onde antigamente os Sacerdotes falavam suas preces, bênçãos e sermões para uma miríade de pessoas, ou pelo menos assim ouvira dizer Korine.
Uma orquídea esculpida se encontrava no topo de um tronco de mármore, e Korine retirou uma de suas pétalas, conectadas à flor dourada por um fio de prata, um mecanismo antigo, porém sofisticado e útil, que revelava as escadas a caminho da Câmara Sagrada.
Erguendo o alçapão revelado embaixo do tronco que suportava a orquídea, uma vez mais descia aqueles degraus, para realizar seu Trabalho. Korine agora se colocaria à disposição de Rhoros, com corpo e mente, para que seu Deus pudesse obter todo o impulso e dedicação necessários para sua preservação e eternidade.


Descendo à Dedicação, passava-se a pensar até quando seria o Sacerdote. Com seus setenta e três anos, Korine se pegava tossindo sangue antes de dormir, ou até sentia seu gosto pela manhã seguinte, ao acordar, e suas costelas e coluna já o atormentavam mais do que podia imaginar.
Mesmo assim, se colocava à disposição de Rhoros até que seus pensamentos não mais pudessem escapar pela boca, e até que seu sangue não mais pulsasse durante suas veias lotadas de pó, até que escolhesse algum sucessor, se possível, e, finalmente, para aguardar a chegada do Último, o Sacro Sacerdote, Aquele Que Existirá Sempre, descansaria nos braços eternos de Rhoros.
Korine era o último dos Sacerdotes da Vida, escolhido a partir da Casta. A única diferença entre ele e todos os outros Sacerdotes que já existiram era o fato de que Korine não tinha nenhum servente, companheiro ou Sacerdote aliado. Era, realmente, o último. E, como Sacerdote, não poderia procriar ou fornicar, impossibilitando sequer um filho que o substituísse (era o único componente da Casta atual, e não podia escolher nenhum sucessor. Isso se devia tanto ao fato de não haver mais crentes na Vida e, além disso, de Korine não poder ter tempo para escolher um sucessor, segundo o tanto que dedicava ao Trabalho).
Chegando à Câmara, se ajoelhou e rezou as preces. Durante o processo, observou o cômodo quadriculado e lotado de tijolos de pedra, pequeno e sufocante, mas que trazia a si a calma e a concentração necessária para entregar-se a Rhoros. Vendo o recanto acinzentado, se pôs à sincronia da Vida.
Korine lembrava-se de seus desejos carnais e absolutos. Além de lembrar-se dos sonhos de ter família, com uma esposa que o amava todas as noites (nos quartos, banheiros e em situações espontâneas), também sentia a memória de todos os seres. Era capaz de absorver as emoções e situações que todos os tocados pela Vida sentiam, e era seu dever executar a manutenção dos Vivos.
O fazia ao entrar em sincronia com suas Essências, fazendo o possível para livrá-los de auras negativas e doenças espirituais, as quais frequentemente levavam a tormentos físicos e psicológicos. Mas, sendo somente um em uma função onde centenas eram necessários (e, antes, presentes), Korine não era capaz de regular todos os Vivos. Por mais que já houvesse desenvolvido, pela experiência, exóticas técnicas da Expurgação e da Sincronia ao longo dos seus cinquenta e cinco anos de serviços sacros, infelizmente quando excedia uma dezena de Expurgações já se encontrava extremamente exausto e cansado. Mas sempre valia à pena.
Enquanto se punha à disposição de Rhoros, Korine pôde sincronizar-se com um pequeno camponês chamado Hughe, que com seus oito anos já sofria extremos abusos internos. Hughe vivia debaixo de pontes no sul da Capital, com seus pais e dezenas de necessitados, na Baixada Carente. Korine já havia transitado a Baixada quando ainda era um Sacerdote novo, isento de um excesso de deveres que agora já visualizava como rotina, e possuinte de uma jovialidade e esperança de catalisar o mundo e a pobreza. Não que houvesse de fato abandonado essa ambição, claro, mas não mais optava pelos meios físicos para obter seus fins, visto que seu tempo não estava mais à sua própria disposição (e sim à de Rhoros) e, além disso, já podia fazer mais diferença com o Trabalho do que jamais conseguiria pulando cercas e enfrentando guardas.
Hughe acabara de acordar para se banhar no rio, uma corrente de esgoto e dejetos que deixaria o mais sujo dos ratos enojados e com uma sensação de limpeza e asseio próprio. A criança detestava isso, Korine podia sentir. Aquele ódio iria se transformar em alguma tosse ou virose complicada, eventualmente. Korine retirou-o para curar seu espírito, afinal não iria sair daquelas condições sanitárias tão cedo, parecia. Mais fácil seria se conformar com o fedor e a sujeira, fazer parte deles até, antes de se martirizar pela situação horrorosa sob a qual se encontrava.
Após seu conturbado banho, se poderia ser chamado de tal, Hughe vestiu de volta seus trapos e pôs-se a caminhar às padarias, para mendigar trocados e pães velhos, amassados e até estragados, se necessário. Já havia mais de dois dias que não se alimentava sem ser com ratos ou alguma coisa proveniente daquelas águas imundas.
Assim, Korine tirou de Hughes, também, o desgosto, proveniente das precárias condições onde se encontrava. Se continuasse assim, Hughes seria um Vivo mais bem preparado para aquela Vida que acabara tomando do que muitos dos adultos ali presentes.
Sentindo seu Trabalho, ali, concluído, Korine retirou os esforços à Expurgação e começou a meditar para reaver sua Essência.
Ao ponderar sobre sua própria vida, se percebeu retirado de todos os males espirituais. Korine respirava uma pureza quase digna de um deus, e era o último elo entre os planos terrestres e Rhoros. Pensando nisso, tentou, novamente, além da centésima vez, comunicar-se com Rhoros.
Aqueles esforços sugavam sua Essência, pois se punha a comunicar-se com toda a energia terrestre, o que também definitivamente afetava os Vivos, fazendo com que Korine, no futuro, apenas tivesse de trabalhar ainda mais. Mesmo assim, vibrava entre os ares e as respirações e transpirações terrenas, esvaia-se de sua própria existência e oscilava entre manifestações materiais e etéreas, para que atingisse a Iluminação Máxima. Com ela, sabia, obteria a comunicação de fato com Rhoros, podendo então descobrir tudo sobre si mesmo e sobre a Existência.
Foi então que sentiu.
Como se as suas próprias entranhas conspirassem contra si, Korine sentiu-se como as persianas que batiam violentamente contra as paredes que a continham. Não continha a si mesmo, nem sentia o que antes existia em seu ser interno. Só ouvia uma voz:
- Korine, certo? Tenho convicção que esse seja o nome pelo qual lhe chamam. Saiba que seu despertar não foi em vão. E não digo sua conexão com meus planos, nem profiro uma metáfora sobre seu domínio à Essência, não. Digo que, hoje, não acordara por coincidência. Tenha em mente que aqui lhe trouxe para que entendesse. Entendesse que há e haverá muitos Hughes. Confio em seu ceticismo e experiência, fatores que não deixam que abra espaço a nenhuma espécie de inocência, mas também temo.
“Temo que você seja, de fato, meu último Sacerdote. Minha última missão, meu último elo, meu último Servidor. Minha última esperança. E não digo ‘esperança’ de alguma forma leve, não. Tenho em mente o que isso implica. E espero que você também tenha. Tenha ciência e certeza de que é e será o Último. E sabe o que isso significa, Korine.
“Significa que agora é seu o dom e o dever da vida eterna. Que será, até o fim de nossa existência, aquilo que rege os Vivos na Terra, realizando o Trabalho com todos os seres existentes em todo o espaço-tempo.
“Por tudo que já fez, agradeço, e parabenizo-o por se mostrar digno de ocupar o lugar de meu último real Servente. Sim, será solitário, como sabemos, mas valerá à pena até que chegue o dia quando nenhum Vivo jamais passe necessidades psicológicas ou físicas. Seu trabalho apenas começou.”
Sentindo uma pureza invadir seus pulmões e sua própria vida, Korine se pôs a ponderar sobre tudo aquilo e sobre até onde iria conseguir levar o Legado de Rhoros, uma vez abençoado com a Eternidade. Era o Último, Aquele Que Existirá Sempre, a última instância entre os planos da Terra e de Rhoros.
Assim, levantou-se da Câmara e se pôs a subir ao Altar Central. Passava os degraus como um homem morto, pisando na pedra e no mármore como se lá contivessem seus próprios sonhos. Agora, com a imortalidade, viveria uma lembrança eterna enquanto sentiria saudades de uma época pela qual nunca passara ou passaria: onde uma família e filhos podiam ser uma realidade, tangível e factível.
Chegando ao altar, ponderava: até que ponto seu trabalho era, de fato, importante? Até que ponto já deveria deixar de interferir tanto nas Vidas? Já não era tempo de todos tocarem seu próprio Universo sem que Sacerdotes ou entidades se colocassem acima, manufaturando emoções e impulsos que não eram verdadeiros, de fato?
“Por quê?”, era o que passava por sua mente de modo tão frequente que até se estranhava.
Deveria rezar e meditar, se concentrar em tudo e em nada, em si mesmo e na Essência. Sentir a Vida e fazê-la senti-lo, encontrar a Iluminação.
Caminhando ao Poço, jogou uma moeda no buraco eterno para que Rhoros o respondesse: era assim tão valioso seu Trabalho? Deveria viver para sempre para realiza-lo, por um simples capricho de um Deus egoísta que desejava ser adorado e amado? Por uma rasgada lembrança de algo bom ou puro, que na verdade era uma ilusão trazida por seus próprios serventes?
E pulou.
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Queirós

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MensagemAssunto: Re: Sacerdotismo   Qui Jul 10, 2014 6:46 pm

Gustavo, sua escrita é impecável, mas disso você já sabe. Entretanto, de que adiantaria eu ler se não pudesse comentar minhas impressões? Muito bem, a descrição do altar central é muito bonita de se ler, mas muito difícil de se imaginar, mesmo pra quem já se entendeu com tantos cenários fantásticos nos jogos de RPG. Naturalmente, isso não é uma falha do texto, mas uma falha da imaginação do leitor.

Eu achei que o Korine fosse mais jovem, pelo desejo de possuir uma família, uma esposa que o amasse. De qualquer forma, 55 anos não é lá tão velho assim; o problema é que são 55 anos de serviços sacros, Korine é velho demais! Deve ser porque ele consegue sentir os conectados à Vida, não é? Pode ser daí que vem o desejo de ter uma família, uma mulher, de ser um simples humano sem os encargos do Rhoros.

Um outro negócio que vem de gosto pessoal, mas que direi uma ou duas palavras a respeito, é a escolha dos nomes: Hughe, Rhoros, Korine. É verdade que a sua narrativa não se passa em solo nacional, mas eu tenho a impressão de que nomes conhecidos nos ligam ainda mais a coisa, entende?

Enfim, no meio da história, a relação entre Korine e Heghe é muito bonita, quando este tira daquele as suas mazelas, ou parte delas. "Korine tirou de Heghes o desgosto" ...se possível, eu tentaria evitar a repetição aqui: "que batiam violentamente contra as paredes que a continham. Não continha a si mesmo, nem sentia o que antes existia em seu ser interno."

Uma coisa que estranhei um pouco foi esta parte que cita a vida eterna e depois limita-a com o fim de uma existência: "Significa que agora é seu o dom e o dever da vida eterna. Que será, até o fim de nossa existência"

No mais, belíssimo texto, é difícil de acreditar que você tem apenas 18 de idade.

"Temo que você seja, de fato, meu último Sacerdote. Minha última missão, meu último elo, meu último Servidor. Minha última esperança. E não digo ‘esperança’ de alguma forma leve, não. Tenho em mente o que isso implica. E espero que você também tenha. Tenha ciência e certeza de que é e será o Último. "

"Caminhando ao Poço, jogou uma moeda no buraco eterno para que Rhoros o respondesse" Poço dos desejos, AHAHAHA.
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Indy J

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MensagemAssunto: Re: Sacerdotismo   Seg Jul 14, 2014 4:42 pm

Eeeeeeeeeeeeeeeeeita Carlijko, muito grato!

Suas observações me fizeram enxergar umas coisas que eu não tinha visto mesmo depois de umas 4 revisões. Por isso que gosto daqui!

Tudo anotado e devidamente será respeitado em próximas escritas. Valeu! Very Happy
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