Odisseia do Escritor

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 As cicatrizes de Nerissa

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Carol Rodriguez

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MensagemAssunto: As cicatrizes de Nerissa   Sex Ago 08, 2014 9:14 pm

E com um tique de relógio, ele despertou.


O homem deitado na cama ao meu lado se espreguiçou e esticou seu braço tateando o outro lado para ver se eu ainda permanecia ali. Achando meu braço, ele sorriu enquanto se virava para que eu pudesse encará-lo. Abriu os olhos devagar e foi como se eu estivesse vendo obras de Poseidon mais uma vez. Seus olhos eram enormes e de um azul-escuro que me devorava da cabeça aos pés. Eu tinha medo de sua imensidão. Segurei minha respiração tentando conter o sentimento estagnadamente idiota cujo qual eu estava nutrindo pelo meu trabalho.


Sua mão áspera e quente acariciava meu braço, passeando com seus dedos pelas linhas desenhadas que eu tinha em minha pele. As cicatrizes não o assustavam, apesar de serem extremamente feias e me cobrirem por inteira. Tudo bem, eu sei que ele não estava realmente me vendo. Ao me lembrar disso, meu coração sentiu uma leve pontada que ignorei. Não devia ser nada de importante.


– Acho que dormi demais. – Ele me disse, enquanto eu puxava meu braço de volta pra mim. Não o queria perto de minhas marcas feias. – E você? – Ele me olhou de soslaio com um brilho esperançoso nos olhos. Fiquei grata que ele não pudesse me ver e tentei controlar minha voz, ignorando minhas preocupações iniciais.

– Ora, Bart, sabe muito bem que não durmo! – Respondi um tanto despreocupada como se não fosse grande coisa. Mas era.


No meu mundo não se dorme e nem se come por necessidade. Apenas por fartura e para manter as aparências. Mas eu sou quase uma escrava dos Deuses, logo sempre estive perto dos humanos. A sua capacidade de dormir e de ter sentimentos sempre me foi invejável. Eu? Eu sou como Pinóquio. Vivi muitas eras e na de hoje é a que ganho mais forças, mas a que meu desejo está mais forte do que nunca. Assim como de minhas irmãs.


– Vamos, me conte uma história. – Barthemius era o primeiro humano para quem me deixei mostrar. Geralmente, crianças de colo e animais podiam me ver. Eram as regras desse trabalho. Sempre fui comportada e queria impressionar mamãe e titia, meus maiores modelos. Um dia eu seria bela e forte como elas. Mas, depois de milhares de anos, desde a criação do mundo, aqui estou eu, na mesma condição. Apenas ganhando mais cicatrizes como recompensa por cada trabalho bem executado. E a verdade é que eu já devia ter ido embora, Barthemius não precisa mais de minha presença. Mas as Moiras ficam sussurrando entre um café e outro para que eu fique, que meu destino aqui ainda não foi finalizado.

– Uma história? Deixe-me ver... – Eu torci o nariz e tentei me lembrar de meus anos dourados. Ah sim, eu queria ter sido uma contadora de histórias, uma musa, ou quem sabe uma ninfa. Eu tinha que ser uma das Algeas de Éris. Pior, eu tinha que ser aquele espírito da dor cujo qual ela mais se orgulhava.


Rolei meus olhos e encontrei o teto de madeira do pequeno sobrado que Bart possuía no centro da Londres contemporânea e barulhenta. Olhei para seu relógio de cabeceira enquanto procurava uma narrativa.


– Ah! Uma vez titia Afrodite fez um povo todo entrar em guerra contra outro... – Comecei, encostando minha cabeça sobre o peito dele coberto pela camisa do pijama. Barthemius tateou minhas costas até chegar ao topo de minha cabeça e começou a acariciar-me bem ali. Sentia uma coisa esquisita toda vez que ele o fazia. Difícil dizer, mas isso era uma das únicas coisas que me dava à sensação de calor, de ficar aquecida. Porque eu era gelada. A temperatura de meu corpo era semelhante a uma pedra de gelo e isso o machucava, estava em seus olhos. Ele fazia caretas ao me tocar. Mas nunca recuava.

– Ei, essa conheço! Liby lia o livro pra mim.... – Sua mão parou de me acariciar e sua voz vacilou. Ergui meu pescoço para que pudesse olhá-lo e me afastei. – Me desculpe. – Ele sussurrou, com lágrimas nos olhos. Liby. Sua mulher. A primeira que levamos, quando nos conhecemos.


Liby falecera há alguns anos. Na verdade, eu era destinada a ela. Era para ela ter ficado viúva, mas Barthemius se atrasou para sair de casa naquele dia por causa de sua condição visual. O tiro acertou-a em cheio e o ladrão não olhou para trás. E lá estava eu, em seu enterro, apertando a mão de Bart mesmo que ele ainda não pudesse me notar.


Eu sou um espírito da dor humana. Eu sou hóspede, eu sou amante, eu sou parasita.


Apareço quando a pessoa que amamos para de respirar e vou embora quando a lembrança nos faz sorrir ao invés de chorar.


Mas ele estava desolado. Depressivo. Tio Hades tirou dele não só seus olhos, mas sua força de vontade. Barthemius tentou suicídio diversas vezes. E foi aí que eu tive que intervir. Fui criada neste século para lidar com Liby, então  sabia como passar por suas defesas e por quanto tempo ficaria me alimentando de suas lágrimas. Mas ele não. Eu não o conhecia. Liby perderia seu marido, mas se manteria viva por causa de seu filho. Seu filho. O pequeno Alec.


E quando Barthemius tentou se matar e estava quase conseguindo, eu tive que intervir. Até mesmo a dor tem seus limites. Até a dor tem sua própria morfina. Não estava na planilha deixar Alec órfão com 5 anos de idade.
Mesmo sabendo o que eu era e que minha presença significava sua dor, ele me deixou ficar. “A dor precisa ser sentida”, ele recitou de um livro que não entendi muito bem.


– Me desculpe... – Ele tornou a repetir. Eu beijei sua testa e ele estremeceu de frio.

– Tudo bem. Vou fazer algo pra você comer.  – Levantei-me e saí do quarto aos tropeços, ignorando uma trilha feita meticulosamente de caixas de sapatos como um caminho-guia.


Dei uma boa olhada em sua sala totalmente projetada para um deficiente visual: móveis nos cantos e o caminho-guia de caixas que rodava a casa inteira, como um labirinto que sempre dava para algum cômodo. Caminhei até a janela tento o cuidado de pular o caminho para não desarrumá-lo. Bart era virginiano e, Deuses, morava ali há tanto tempo que mesmo sem ver, apenas tateando com sua bengala, sempre notava quando algo estava fora do lugar por centímetros que fossem.  A única coisa desarrumada era sua mesa. Bart nem sempre fora cego, de modo que Liby estava ensinando-o a ler em Braille. Logo, ele era viciado em audiobooks e livros traduzidos para sua linguagem – o que mesmo na atualidade é bem raro. Humanos são sempre tão atrasados!


Em sua sala fotos decoravam as paredes de madeira. Estavam por todo lugar: retratos, de paisagem, abstratas... Ele havia sido fotógrafo antes de perder a visão para um glaucoma.


Desde então estava desempregado. Fotos de seu filho Alec, se destacavam entre elas. O menino tinha os cabelos ruivos do pai e os olhos escuros da mãe. Alec tinha sido levado pela assistente social e foi morar com os avós maternos já que o pai não tinha condições de cuidar dele sozinho. Alec dizia que não estavam sozinhos, estavam comigo. Mas eu não podia ser vista por terceiros.


Parei na frente da janela coberta por uma persiana marrom e a abri. Lá fora chovia. Estávamos no meio do dia, mas o bairro de Barthemius era movimentado. Logo do outro lado da rua tinha um ponto de ônibus lotado de gente. E eu podia ver a tristeza e a dor de cada uma dessas pessoas, traduzidas em palavras e números pra mim. Logo mais eu teria que ir para um deles e abandonar Bart. Mas quem seria o meu próprio espírito da dor, então?


Uma lágrima escorreu por minha bochecha enquanto eu era desenhada com uma nova cicatriz. Na testa. Essa tinha um lugar especial só pra ela. E aí eu soube. Essa era a cicatriz das dores de Barthemius, que certamente as Moiras tinham me mandado. Estava na hora de deixá-lo.


– Nerissa? Amor? – Sua voz chegou até mim e quanto vi ele estava cruzando a sala pela trilha de caixa de sapatos, com sua bengala.


Me virei repentinamente, assustada. Ele havia sido silencioso. E sempre que chamava meu nome meu coração dava um salto para me lembrar que estava ali. Um ano antes eu nem sabia que eu tinha um coração.


– Estou aqui. Bart. – Murmurei em alto e bom som para que ele pudesse me localizar. Sequei minha lágrima e tentei controlar minha voz. Estendi minha mão para ele quando estava se aproximando e entrelacei nossos dedos, puxando-o para perto.

– Sua voz. Está estranha. – Suas mãos procuraram meu rosto e acariciaram meus olhos, molhados. Ele suspirou pesadamente. – Vem cá. – Me abraçou. Bart era meio gordinho e três cabeças mais alto do que eu.

– Bart.

– Sh. – Então ele o fez. Ele beijou minha testa, no exato ponto em que estava minha nova cicatriz. Como ele sempre fazia, cuidadosa e protetoramente, num gesto cheio de ternura e respeito. Sua boca parou no ar a poucos centímetros de minha testa após o ato. Ele levou os polegares para minha testa e com eles alisou a nova moradora de meus tormentos.

– É... É sua. – Murmurei com a voz falha, tentando segurar o choro. – Eu lamento.

– E eu agradeço, pequena.

– E veja. – Afastei a alça do meu vestido de trapo e coloquei sua mão para dentro, posicionando-a um pouco acima de meu seio, na altura do coração. Sua mão quente encontrou, em minha pele gelada, uma protuberância em forma de X. – E essa é a minha. – Então ele sorriu e me beijou delicadamente ainda tocando a minha nova cicatriz.

Retirou sua mão de dentro de meu vestido e procurou posicionar as duas ao redor de minha cintura.


– Eu... Eu posso tirar uma foto sua? Sabe, pra quando eu voltar a ver...

– Oh, querido. Eu sinto muito, mas eu não apareço em fotos. E... E temo que você me odiará...

– O que está dizendo, Nery?

– Terei que apagar suas lembranças sobre mim, querido. – Minha voz engasgou em minha garganta e me senti asfixiar. Mas eu não morro. Eu sou o luto.

Barthemius deu um passo para trás e vi sua expressão ficar impassível, dura feito uma gárgula, uma estátua de Medusa.


– Isso vai te manter viva, não vai? Lá em cima? – Sim, ele entendeu. Eu já havia cometido a burrice de me deixar envolver com um humano. Estavam me dando a chance de consertar isso, de não ser banida. E talvez um dia eu tivesse a chance de vê-lo de novo. Assim, mamãe Éris tinha prometido não entregá-lo a Hades também. Eros me garantiu que tinha uma outra flecha de seu arsenal reservada para ele, lhe prometendo felicidade. Então, sim, eu o faria. Eu? Me lembraria dele eternamente e essa seria minha punição: ser o constante espírito de minha própria dor de perda.

– Vai. – Assenti mesmo sabendo que ele não iria ver.

– Então faça, Nery. Perdi meu filho para que ele crescesse em condições seguras. Posso perder minha memória por você. Só me garanta que ficará bem. – Ele tornou a se aproximar, tateando o ar, e me segurou pelos ombros.

– Eu vou fica bem. – Eu não vou ficar bem.

– Mesmo?

– Mesmo. – Menti.


Bart então me beijou e foi como se todas as minhas vidas, todas as coisas que vi no mundo se despedaçasse dentro de mim. Então, em minha própria consciência, eu estava em uma sala cheia de espelhos onde cada reflexo era uma faceta minha. E todas elas debochavam de minha fraqueza. Quem diria, diziam elas em coro, a dor tem uma fraqueza.


– Então faça. – Ele sussurrou entre o beijo e colou sua testa na minha. Encarei seus olhos azuis pela última vez e coloquei minha mão sobre eles, tapando-os. Tentando me concentrar, evoquei a ajuda de Mnemosine o mais alto que consegui. Por mais que por dentro eu quisesse fazer o oposto disso. E, num instante, tudo se foi.


Barthemius abriu os olhos, mas não me via mais. Ele tinha o sentimento de que o luto estava finalmente deixando-o, de que estava com coragem para retomar sua vida. Enquanto eu saia pela janela e me juntava a chuva sem olhar para trás. Agora, eu seria uma lágrima como tantas outras. Agora, eu sabia exatamente como eles se sentiam com a minha presença. Mas no meu caso seria o tempo todo. E todos os espelhos se quebravam em mil pedaços a cada segundo de minha mísera existência.


Última edição por Carol Rodriguez em Sab Ago 09, 2014 10:00 am, editado 2 vez(es)
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Patricia Souza
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MensagemAssunto: Re: As cicatrizes de Nerissa   Sex Ago 08, 2014 10:41 pm

:')

Ain carol que coisa linda! Triste, melancólico e lindo! Amei! Amei tanto que não consigo achar um defeito pra apontar, a não ser um ou outro erro de digitação. Parabéns viu, sua linda! :3
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Tammy Marinho

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MensagemAssunto: Re: As cicatrizes de Nerissa   Dom Ago 10, 2014 1:40 am

Fabuloso... Tocante... Meu eu quis chorar o tempo todo, e na verdade uma lágrima furtiva até escapou do meu olhos.
Mas o negócio foi tão tão profundo que acho até que a Nerissa deu uma passada por aqui, pois isso doeu no fundo da alma.
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Ademar Ribeiro

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MensagemAssunto: Re: As cicatrizes de Nerissa   Qui Ago 14, 2014 4:47 pm

Gostei de sua obra. Achei um tanto melancólica, mas quais romances não são? Então se a vida é feito de perdas e ganhos, faremos dela nossa morada. Derrame só mais uma lágrima para Bart voltar a enxergar, por favor.

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MensagemAssunto: Re: As cicatrizes de Nerissa   Qui Ago 14, 2014 6:50 pm

Achei muito bonito e suave, embora tenha sido um processo meio passivo. Me senti meio que assistindo a um filme - com puta fotografia, cenário e trilha sonora, experiência completa - e faltou um tanto de empatia.
No conjunto da obra, muito bonita a história e achei que respeitou MUITO BEM o tema e subgênero.
Parabéns!

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Caio Biolcatti
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MensagemAssunto: Re: As cicatrizes de Nerissa   Qui Ago 14, 2014 9:19 pm

Caraaaamba! Olha Carol, poucos LIVROS me emocionaram tanto, quanto mais um conto! Meu, que absurdo! Ainda estou pasmo AIUEHIAEHIUHEAUHUEI Estou até me enrolando para escrever, carma. Não sei como descrever o que foi ler esse conto. Eu pude sentir, e quando digo sentir, quero dizer sentir mesmo essa emoção que você carregou o texto. Consegui relacionar com fatos da minha vida, com fatos conhecidos, com tudo... Não tenho o que falar para você, a não ser meus mais sinceros parabéns! Minha nossa, que conto! Nossa. Não. AIEUUIAEUIEAUIUIEAIUEAUIHEAUI Estou meio atrapalhado, vou parar de escrever. Parabéns mais uma vez :O

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Weslley Reis

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MensagemAssunto: Re: As cicatrizes de Nerissa   Sex Ago 29, 2014 1:59 pm

Pra mim, que não conhecia essa parte da mitologia, foi uma surpresa. Sério. Muito legal você tratar das divindades menores, ainda mais como tratou. O conto tem uma voz constante, uma melancolia doce que acompanha a trama do começo ao fim, sem se alterar, de modo que causa uma identificação imensa.

Parabéns.
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As cicatrizes de Nerissa
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