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 Gratidão:O Pagamento devido aos deuses.

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Adriano Griot

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MensagemAssunto: Gratidão:O Pagamento devido aos deuses.   Seg Ago 11, 2014 12:21 pm

Quando Orfeu recebeu seu dom musical encantador capaz de seduzir ninfas,animais e até plantas além é claro de qualquer pessoa que o ouvisse. Estava implícito a quem devia essa graça: Baco,o alegre deus vinicultor e criador do instrumento do qual  Orfeu se servia.Mas  o jovem era ingrato e não reconhecia o privilégio que havia recebido,para ele pelo contrário muito lhe deviam as pessoas que desfrutavam do prazer de ouvir suas melodias,desprezava-as secretamente e considerava-as indignas dele.Isso mudou em parte ao conhecer Eurídice a linda menina por quem ele se apaixonou,Eros se aproximou deles flechou-os e passaram a viver um para o outro. Orfeu e Eurídice cada dia mais se afastavam de homens e deuses,viviam um pelo outro,um no outro.Ela uma nova Musa, exclusiva daquele artista, o seu artista, eternamente juntos um amor que nem no Olimpo tinha igual,pensavam os amantes.
Ele se cultivasse videiras e fabricasse vinhos seria o próprio Baco.Esquecidos de que quem  proporciona prêmios também distribui punições,passava o casal seus dias a fruir a felicidade sem agradecer àqueles que a tornaram possível,só viam e se importavam um com o outro,deuses e homens lhes eram indiferentes. Orfeu já não distribuía a alegria de sua música e Eurídice não cumpria com os deveres do templo a que tinha que atender,além de faltar com a assistência aos pais idosos.
Descuidados dos mais altos deveres com a família,a pólis e os deuses,a princípio invejados e depois gradualmente esquecidos pelo amigos cujo afeto eles não sabiam  honrar e retribuir,surdos aos apelos que poderiam ajudá-los trilhar um caminho melhor,não restava outra solução além de separar os amantes ingratos.Quando ela morreu num acidente deixou um inconsolável músico que compôs um  réquiem belíssimo que emocionou até os animais.
No Tártaro, sua amada não demorou em reconhecer a justiça da situação e se conformar com a mudança que se operara.Ela que negligenciara sua posição como serva num templo iria servir agora na corte de Hades e ai dela se falhasse nessa tarefa como falhara em vida,se a primeira falha lhe custara a vida, a segunda significaria um eterno e cruel castigo a cólera dele, que era conhecida e temida até pelos outros deuses caso se voltasse contra ela não teria limites, por um passageiro amor humano infrutífero,não tivera filhos  não fornecera à cidade novos habitantes que a honrassem e defendessem tão ocupada estava em admirar o marido artista.Enquanto isso no mundo dos vivos Orfeu que não aceitara a separação ordenada pelos deuses encontrou uma passagem para o Tártaro,invadiu o reino dos mortos e disposto a arriscar tudo se aventurou a resgatar a mulher,mal sabia ele que  tudo isso era parte do plano divino,queriam os deuses se divertir vendo-o fracassar na tentativa de fugir daquele lugar que nem mesmo Zeus ousava penetrar sem a permissão do irascível irmão que controlava tudo ali.
Com a permissão de Hades deixaram que ele soubesse como entrar ali e fosse advertido de que na saída estava o maior perigo: Se sua amada olhasse para trás antes de estar fora dali ficaria presa no Tártaro para sempre e sem que pudessem se reencontrar.
Eurídice servia Hades e sua esposa,estava permanentemente apavorada com a ideia de que se cometesse qualquer erro,por menor que fosse sofreria uma punição terrível.
Vencendo os desafios do caminho até chegar ao local onde ela estava Orfeu explicou como sairiam dali,a condição de que ela só olhasse para trás quando estivessem fora dali em segurança.Eurídice ouvia a tudo apavorada,queria fugir e tinha medo do castigo caso a fuga não desse certo mas a presença dele ali a animava dava-lhe coragem para tentar,para enfrentar todos os deuses do Olimpo se preciso fosse.Eles sairiam dali e seriam felizes mesmo contra a vontade de todos os deuses.Pensando assim e se considerando a salvo,escondidos de todos os deuses o imprudente e ingrato casal esquecia que deuses sabem de tudo e sondam o coração humano facilmente,houvessem eles demonstrado humildade e poderiam ficar ali juntos,passariam a eternidade ali,juntos e felizes mas mantinham a atitude desafiadora e pouco respeitosa que custara a vida dela.
Assim foi que poucos metros antes da saída,já sentindo a brisa fresca indicativa de que estavam próximos do reino dos vivos,ela se lembrou de sua nova senhora,na verdade fora chamada mentalmente por ela,então num rápido movimento um pequeno relance quase imperceptível, Eurídice volta o rosto para a região que devia abandonar sem olhar e se esvai qual fumaça aos olhos de Orfeu que grita pela mulher ele tenta detê-la mas é tarde demais, ela volta para o reino dos mortos para ele estará eternamente perdida.Aprendiam assim que não se pode enganar aos deuses e nem esperar recompensas aquele que é ingrato,essa história serve de aviso a todos os felizes do mundo:Sabiam repartir vossa felicidade,quanto mais a compartilharem mais terão felicidade de volta mas se tornarem-se egoístas ocupados somente convosco e com os que lhe forem caros ao coração esperem que mais dia menos dia perderão o que mais amam e não encontrarão consolo posto que não terão nada além do vosso egoísmo  a lhes recordar o que perderam,aqueles porém que souberam espalhar alegria  nos momentos de dor encontram consolação em seus corações.Se os deuses vendem quando dão e a este casal deram muito,o que pedem como pagamento é um bom procedimento, que sejam gratos e não se esqueçam de ajudar como foram ajudados por deuses e homens.No Olimpo e no Tártaro houve lamentações pelo infeliz casal,ninguém desejava a separação deles mas as atitudes tomadas diante das circunstâncias não deixavam margem para outra decisão iam aprender separados o que deviam ter demonstrado juntos:o valor da gratidão aos deuses e o valor da amizade entre os homens,aquilo que se recusaram a fazer em vida agora seria  seu castigo,viveriam o outro lado da história foram egoístas e ingratos agora conheceriam o distanciamento compulsório, o  desinteresse pela situação que experimentavam , a saudade mútua ,eis o castigo desses infelizes amantes descuidados.


Última edição por Adriano Griot em Qua Ago 13, 2014 8:38 am, editado 2 vez(es)
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Adriano Griot

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MensagemAssunto: Gratidão:O Pagamento devido aos deuses.   Seg Ago 11, 2014 12:30 pm



Quando Orfeu recebeu seu dom musical encantador capaz de seduzir ninfas,animais e até plantas além é claro de qualquer pessoa que o ouvisse estava implícito a quem devia essa graça: Baco,o alegre deus vinicultor o criador do instrumento do qual  Orfeu se servia.Mas  o jovem era ingrato e não reconhecia o privilégio que havia recebido,para ele pelo contrário muito lhe deviam as pessoas que desfrutavam do prazer de ouvir suas melodias,desprezava-as secretamente,considerava-as indignas dele.Isso mudou em parte ao conhecer Eurídice linda menina por quem ele se apaixonou,Eros se aproximou deles flechou-os e passaram a viver um para o outro Orfeu e Eurídice cada dia mais se afastavam de homens e deuses,viviam um pelo outro,um no outro.Ela uma nova Musa exclusiva daquele artista,seu artista eternamente juntos um amor que nem no Olimpo tinha igual.
Ele se cultivasse videiras e fabricasse vinhos seria o próprio Baco.Esquecidos de que quem  proporciona prêmios também distribui punições,passava o casal seus dias a fruir a felicidade sem agradecer àqueles que a tornaram possível,só viam e se importavam um com o outro,deuses e homens lhes eram indiferentes,Orfeu já não distribuía a alegria de sua música e Eurídice não cumpria com os deveres do templo a que tinha que atender,além de faltar com a assistência aos pais idosos.
Descuidados dos mais altos deveres com a família,a pólis e os deuses,invejados e depois gradualmente esquecidos pelo amigos cujo afeto eles não sabiam  honrar e retribuir,surdos aos apelos que poderiam ajudá-los trilhar um caminho melhor,não restava outra solução além de separar os amantes ingratos.Quando ela morreu num acidente deixou um inconsolável músico que compôs um  réquiem belíssimo que emocionou até os animais.
No Tártaro sua amada não demorou em reconhecer a justiça da situação e se conformar com a mudança que se operara.Ela que negligenciara sua posição como serva num templo iria servir agora na corte de Hades e ai dela se falhasse nessa tarefa como falhara em vida.Se a primeira falha lhe custara a vida, a segunda significaria um eterno e cruel castigo,a fúria de Hades que era conhecida e temida até pelos outros deuses caso se voltasse contra ela não teria limites,ela que por um passageiro amor humano infrutífero,não tivera filhos  não fornecera à cidade novos habitantes que a honrassem e defendessem tão ocupada estava em admirar o marido artista.Enquanto isso no mundo dos vivos Orfeu que não aceitara a separação ordenada pelos deuses encontrou uma passagem para o Tártaro,invadiu o reino dos mortos e disposto a arriscar tudo se aventurou a resgatar a mulher,mal sabia ele que  tudo isso era parte do plano divino,queriam os deuses se divertir vendo-o fracassar na tentativa de fugir daquele lugar que nem mesmo Zeus ousava entrar sem a permissão do irascível irmão que controlava tudo ali.
Com a permissão de Hades deixaram que ele soubesse como entrar ali e fosse advertido de que na saída estava o maior perigo: Se sua amada olhasse para trás antes de estar fora dali ficaria presa no Tártaro para sempre e sem que pudessem se reencontrar.
Eurídice servia Hades e sua esposa,estava permanentemente apavorada com a ideia de que se cometesse qualquer erro,por menor que fosse sofreria uma punição terrível.
Vencendo os desafios do caminho até chegar ao local onde ela estava, Orfeu explicou como sairiam dali,a condição de que ela só olhasse para trás quando estivessem fora dali em segurança.Eurídice ouvia a tudo apavorada parecia não compreender muito bem o que ouvia mas concordava com tudo acenando pois não conseguia falar,queria fugir e tinha medo do castigo caso a fuga não desse certo. a presença dele ali a animava dava-lhe pouco a pouco a coragem para tentar,para enfrentar todos os deuses do Olimpo se preciso fosse.Eles sairiam dali e seriam felizes mesmo contra a vontade de todos os deuses.Pensando assim e se considerando a salvo,escondidos de todos os deuses o imprudente e ingrato casal esquecia que deuses sabem de tudo e sondam o coração humano facilmente,houvessem eles demonstrado humildade e poderiam ficar ali juntos,passariam a eternidade ali,juntos e felizes mas mantinham a atitude desafiadora e pouco respeitosa que custara a vida dela.
Assim foi que poucos metros antes da saída,já sentindo a brisa fresca indicativa de que estavam próximos do reino dos vivos,ela se lembrou de sua nova senhora,na verdade fora chamada mentalmente por ela,então num rápido movimento um pequeno relance quase imperceptível, Eurídice volta o rosto para a região que devia abandonar sem olhar e se esvai qual fumaça aos olhos de Orfeu que grita pela mulher ele tenta detê-la mas é tarde demais, ela volta para o reino dos mortos para ele estará eternamente perdida.Aprendiam assim que não se pode enganar aos deuses e nem esperar recompensas aquele que é ingrato,essa história serve de aviso a todos os felizes do mundo:Sabiam repartir vossa felicidade,quanto mais a compartilharem mais terão felicidade de volta mas se tornarem-se egoístas ocupados somente convosco e com os que lhe forem caros ao coração esperem que mais dia menos dia perderão o que mais amam e não encontrarão consolo posto que não terão nada além do vosso egoísmo  a lhes recordar o que perderam,aqueles porém que souberam espalhar alegria  nos momentos de dor encontram consolação em seus corações.Se os deuses vendem quando dão e a este casal deram muito,o que pedem como pagamento é um bom procedimento, que sejam gratos e não se esqueçam de ajudar como foram ajudados por deuses e homens.No Olimpo e no Tártaro houve lamentações pelo infeliz casal,ninguém desejava a separação deles mas as atitudes tomadas diante das circunstâncias não deixavam margem para outra decisão iam aprender separados o que deviam ter demonstrado juntos:o valor da gratidão aos deuses e o valor da amizade entre os homens,aquilo que se recusaram a fazer em vida agora seria  seu castigo,viveriam o outro lado da história foram egoístas e ingratos agora conheceriam o distanciamento compulsório, o  desinteresse pela situação que experimentavam , a saudade mútua ,eis o castigo desses infelizes amantes descuidados.
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Ademar Ribeiro

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MensagemAssunto: Re: Gratidão:O Pagamento devido aos deuses.   Ter Ago 12, 2014 10:08 pm

Poxa Adriano. Adorei tudo isso. Embora não difere muito do original. A mensagem final deu um toque especial, uma vida de amor e alegria devem ser compartilhadas, aos que assistem se apaixonam e seguem os mesmos caminhos ou não.


Adriano, dê uma revisada nas virgulas e pontuações. Parabéns!

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Indy J

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MensagemAssunto: Re: Gratidão:O Pagamento devido aos deuses.   Qui Ago 14, 2014 6:53 pm

Olha, achei que você narrou muito bem uma passagem mitológica... mas não senti muita invenção, sabe? Como pegar uma cena de um filme e a narrar inclusive melhor que a câmera permite, mas uma história pronta de qualquer forma.
Também não fui muito fã da formatação e ~diagramação~, se pode-se dizer assim.

Mês que vem tem mais!

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Caio Biolcatti
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MensagemAssunto: Re: Gratidão:O Pagamento devido aos deuses.   Ter Ago 19, 2014 5:24 pm

Concordo com Ademar, embora eu tenha sentido certa influência sua principalmente no final, acho que você o seu conto está mais para uma paráfrase do que para uma criação, mas tá valendo! Paráfrase é, afinal, um texto original com um enredo já criado. Em comparação ao mês passado, é notório seu desenvolvimento. Parabéns pela melhora!! Very Happy

PS: Futuramente, evite postar duas versões seguidas de um mesmo post. Se quiser alterar algo, edite, e se não tiver permissão para tal, só me mandar um PM. Wink

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Tammy Marinho

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MensagemAssunto: Re: Gratidão:O Pagamento devido aos deuses.   Ter Ago 19, 2014 10:27 pm

Uma única coisa me incomodou profundamente, mas não no texto... Apenas essa formatação muito próxima e com letras super pequenas.
Eu gosto muito do mito que você trabalhou, achei uma escolha pertinente ao tema.

Meus parabéns!
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Queirós

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MensagemAssunto: Re: Gratidão:O Pagamento devido aos deuses.   Qua Ago 27, 2014 11:34 am

Adriano, embora eu possa, não irei elogiar seu conto, porque sei que você está abaixo do seu imenso potencial. Eu conversei com você tantas vezes no chat do grupo...! Sei que tem uma invejável capacidade de criar frases admiráveis! Entretanto quando leio seus contos, parece-me que falta alguma coisa. Alguma coisa sua! É como se aquele Adriano do chat fosse diferente do Adriano dos contos. Aposto que eu abriria um largo sorriso ao ler os seus escritos no papel.

Eu senti uma semelhança com a narrativa original, e isso me incomoda. Eu gosto muito de você, meu caro, porque se o assunto é coração, você encabeça. Você é uma pessoa muito boa e sabe escrever muito bem (eu disse que não iria elogiar o seu conto, mas nunca me canso de elogiar o seu caráter), mas por alguma razão você é sempre conciso nas histórias do mês, não se importa muito com a formatação e a 'diagramação', nas palavras do Gustavo.

Enfim, percebi que tenho saudades daquelas nossas conversas! Como você está? Tudo a mil maravilhas?
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Queirós

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MensagemAssunto: Re: Gratidão:O Pagamento devido aos deuses.   Sex Ago 29, 2014 9:46 am

Adriano, eu tomei a liberdade de fazer uma revisão (que talvez precise de outra revisão), no intuito verdadeiro de ajudá-lo. Fique com Deus.




Quando Orfeu recebeu seu dom musical encantador capaz de seduzir ninfas, animais e até plantas - além é claro de qualquer pessoa que o ouvisse - estava implícito a quem devia essa graça: Baco, o alegre deus vinicultor, o criador do instrumento do qual Orfeu se servia. Mas o jovem era ingrato e não reconhecia o privilégio que havia recebido. Para ele, pelo contrário, muito lhe deviam as pessoas que desfrutavam do prazer de ouvir suas melodias, desprezava-as secretamente, considerava-as indignas dele. Isso mudou em parte ao conhecer Eurídice, linda menina por quem ele se apaixonou. Eros se aproximou deles, flechou-os e passaram a viver um para o outro. Orfeu e Eurídice cada dia mais se afastavam de homens e deuses, viviam um pelo outro, um no outro. Ela, uma nova Musa exclusiva daquele artista, seu artista, eternamente juntos, um amor que nem no Olimpo tinha igual.

Ele, se cultivasse videiras e fabricasse vinhos, seria o próprio Baco. Esquecidos de que quem proporciona prêmios também distribui punições, passava o casal seus dias a fruir a felicidade sem agradecer àqueles que a tornaram possível, só viam e se importavam um com o outro, deuses e homens lhes eram indiferentes. Orfeu já não distribuía a alegria de sua música e Eurídice não cumpria com os deveres do templo a que tinha que atender, além de faltar com a assistência aos pais idosos.

Descuidados dos mais altos deveres com a família, a pólis e os deuses, invejados e depois gradualmente esquecidos pelo amigos - cujo afeto eles não sabiam honrar e retribuir, surdos aos apelos que poderiam ajudá-los trilhar um caminho melhor, não restava outra solução além de separar os amantes ingratos. Quando ela morreu num acidente, deixou um inconsolável músico que compôs um réquiem belíssimo que emocionou até os animais.

No Tártaro, sua amada não demorou em reconhecer a justiça da situação e se conformar com a mudança que se operara. Ela, que negligenciara sua posição como serva num templo, iria servir agora na corte de Hades, e ai dela se falhasse nessa tarefa como falhara em vida! Se a primeira falha lhe custara a vida, a segunda significaria um eterno e cruel castigo. A fúria de Hades, que era conhecida e temida até pelos outros deuses, caso se voltasse contra ela não teria limites. Ela, que por um passageiro amor humano infrutífero não tivera filhos,  não fornecera à cidade novos habitantes que a honrassem e defendessem, tão ocupada estava em admirar o marido artista. Enquanto isso no mundo dos vivos Orfeu, que não aceitara a separação ordenada pelos deuses, encontrou uma passagem para o Tártaro, invadiu o reino dos mortos e disposto a arriscar tudo se aventurou a resgatar a mulher, mal sabia ele que tudo isso era parte do plano divino, queriam os deuses se divertir vendo-o fracassar na tentativa de fugir daquele lugar que nem mesmo Zeus ousava entrar sem a permissão do irascível irmão que controlava tudo ali.

Com a permissão de Hades, deixaram que ele soubesse como entrar ali e fosse advertido de que na saída estava o maior perigo: Se sua amada olhasse para trás antes de estar fora dali, ficaria presa no Tártaro para sempre e sem que pudessem se reencontrar.

Eurídice servia Hades e sua esposa estava permanentemente apavorada com a ideia de que se cometesse qualquer erro. Por menor que fosse, sofreria uma punição terrível.

Vencendo os desafios do caminho até chegar ao local onde ela estava, Orfeu explicou como sairiam dali, a condição de que ela só olhasse para trás quando estivessem fora dali em segurança. Eurídice ouvia a tudo apavorada, parecia não compreender muito bem o que ouvia mas concordava com tudo acenando pois não conseguia falar, queria fugir e tinha medo do castigo caso a fuga não desse certo. A presença dele ali a animava, dava-lhe pouco a pouco a coragem para tentar, para enfrentar todos os deuses do Olimpo se preciso fosse. Eles sairiam dali e seriam felizes mesmo contra a vontade de todos os deuses. Pensando assim e se considerando a salvo, escondidos de todos os deuses, o imprudente e ingrato casal esquecia que deuses sabem de tudo e sondam o coração humano facilmente, houvessem eles demonstrado humildade e poderiam ficar ali juntos, passariam a eternidade ali, juntos e felizes, mas mantinham a atitude desafiadora e pouco respeitosa que custara a vida dela.

Assim foi que poucos metros antes da saída, já sentindo a brisa fresca indicativa de que estavam próximos do reino dos vivos, ela se lembrou de sua nova senhora (na verdade fora chamada mentalmente por ela), então num rápido movimento, um pequeno relance quase imperceptível, Eurídice volta o rosto para a região que devia abandonar sem olhar, e se esvai qual fumaça aos olhos de Orfeu que grita pela mulher. Ele tenta detê-la mas é tarde demais, ela volta para o reino dos mortos: para ele estará eternamente perdida. Aprendiam assim que não se pode enganar aos deuses e nem esperar recompensas aquele que é ingrato.

Essa história serve de aviso a todos os felizes do mundo: saibam repartir vossa felicidade, quanto mais a compartilharem mais terão felicidade de volta: mas se tornarem-se egoístas, ocupados somente convosco e com os que lhes forem caros ao coração, esperem que mais dia menos dia perderão o que mais amam e não encontrarão consolo, posto que não terão nada além do vosso egoísmo a lhes recordar o que perderam. Aqueles, porém, que souberam espalhar alegria nos momentos de dor encontram consolação em seus corações. Se os deuses vendem quando dão, e a este casal deram muito, o que pedem como pagamento é um bom procedimento, que sejam gratos e não se esqueçam de ajudar como foram ajudados por deuses e homens. No Olimpo e no Tártaro houve lamentações pelo infeliz casal, ninguém desejava a separação deles, mas as atitudes tomadas diante das circunstâncias não deixavam margem para outra decisão. Iam aprender separados o que deviam ter demonstrado juntos: o valor da gratidão aos deuses e o valor da amizade entre os homens, aquilo que se recusaram a fazer em vida agora seria seu castigo, viveriam o outro lado da história. Foram egoístas e ingratos, agora conheceriam o distanciamento compulsório, o desinteresse pela situação que experimentavam, a saudade mútua. Eis o castigo desses infelizes amantes descuidados.
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