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 Em Nome do Pai: O Relato de um Édipo Tardio.

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Tammy Marinho

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MensagemAssunto: Em Nome do Pai: O Relato de um Édipo Tardio.   Ter Ago 12, 2014 12:23 am

Em Nome do Pai
O Relato de um Édipo Tardio


Quando conheci minha Jocasta ela de nada era rainha que não de sua tristeza.  E antes de cumprir-se a profecia ela já estava morta de saudades do meu pai.



O ASSASSINATO DE LAIO


No dia em que nasci, oráculo algum previra minha triste sina, mas a infelicidade já me rondara com o abandono do meu pai.
E desde a minha tenra infância sua ausência me assombrara. Por isso, com segurança digo que Édipo ainda era menino quando assassinei meu pai. Eu o matei e enterrei bem no fundo do meu peito, sem saber que em outro país, não muito longe de mim, seu corpo também morria e começava a profecia.
Meu destino, entretanto, só me fora revelado quando num impulso próprio de minha danação quis eu reaver os laços que jamais tive. Minha desgraça levou-me a uma tristonha Inglaterra. Uma terra ingrata e fria que nunca se equipararia a minha amada Itália.



O ENIGMA DA ESFÍNGE


Era uma tarde de sábado quando a conheci. Minha Jocasta estava sentada em sua varanda, segurando uma xícara de chá dourada e, com seu penhoar vermelho, parecia saída da realeza britânica. Sentada ao seu lado a mulher que me parira, Marcelina, parecia temer nosso encontro como se previsse a desgraça a qual eu me destinava.
- Bom dia! – eu cumprimentei erguendo a voz, enquanto tirava o capacete.
Eu não obtive resposta. E ao encarar a mesa posta na varanda apenas encontrei Marcelina, que com os olhos angustiados perseguia os passos daquela desconhecida.
Ela veio a mim caminhando com graciosidade. Tinha uma postura digna da nobreza, embora nada mais fosse que uma italiana solitária na terra da rainha.
- Olá! – ela finalmente me disse.
- Olá, eu sou  Scott Buonanotte. – eu apresentei-me estendendo a mão – e pelo que sei a senhora foi uma grande amiga de meu pai.
Ela nada disse. Apenas me fitou com seus enigmáticos olhos de esfinge e sem grande cerimônia abraçou-me com toda força que o franzino corpo parecia capaz de exercer.
- És mesmo filho dele. – ela murmurou quando se desvencilhou de mim e contemplando meu rosto abriu um sorriso que me inebriara a alma.
Entretanto, no segundo seguinte, ao olhar seus olhos cavos que me fitavam na esperança vã de encontrar outro homem, eu soube que em toda a vida nunca encontraria ser tão triste quanto ela. Era sua tristeza o enigma da esfinge e, quando a decifrei, ela me encaminhou para o palácio de Laio: onde eu seria o rei, e ela minha rainha.



O LEITO DE JOCASTA


Sete meses haviam se passado desde minha chegada. Nesse instante, eu já conhecia minha fatídica sina. A imagem do homem que eu matara ainda menino perseguia-me estendida nas paredes. Não importava onde eu fosse e,sabia que minha fuga seria inútil enquanto estivesse eu abrigado no Palácio de Laio. Entretanto, meu coração já se via condenado a buscar o amor que não lhe pertencia e estava entregue à desgraçada profecia que não tardaria a se cumprir.
Quando minha Jocasta adentrou a sala, eu era o usurpador sentado à mesa do rei. Eu comia de seu prato, vestia suas roupas e esperava pelo amor daquela que jamais o tinha esquecido.
- Obrigada por ter me acompanhado hoje. – ela me agradeceu, arrumando o longo vestido preto que lhe contornava o corpo de menina. – Sabe, isso seria muito importante para o seu pai. – ela afirmou, segurando uma das inúmeras fotografias que adornavam os poucos cômodos da casa.
Eu assenti com um sorriso.
Na verdade eu me sentia péssimo com tudo aquilo. Eu nunca havia aprendido a amar aquele homem. Ele era meu pai. Mas como eu disse, outrora há muito, ele estava morto dentro de mim. Porém, o amor que eu nutria por ela impedia-me de confessar minha indiferença.
- Quando eu descobri você, prometi ao seu pai que sempre faríamos isso. – ela afirmou, sentando-se à minha frente. – Pavel sempre quis um filho. Passar o dia dos pais com o próprio filho. Infelizmente, o destino não quis que vocês tivessem isso antes, mas eu fico feliz em poder ter propiciado esse encontro, mesmo que tardio.
Era dia dos pais, mas durante todo o jantar em nenhum momento eu pensei em Laio. Mesmo seu rosto fazendo sombra a meus pensamentos onde quer que meus olhos buscassem alívio. Era dia dos pais. Mas meus pensamentos eram inteiramente dela. Jocasta. Minha rainha morta que parecia apenas viver nas lembranças e que sempre me sorria um sorriso triste e sem vida.
- Obrigada, Scottie. De todo coração, obrigada. – ela me agradeceu com a voz incrustada de pesar, enquanto seus braços enlaçaram meu pescoço e seus lábios me tocaram a testa. – Boa Noite!
Ela já estava no quarto, quando uma risada nervosa me atravessou os lábios. E como um homem enlouquecido, me coloquei a rir do desgraçado destino que a vida me impusera. Eu já não era Scott. Eu era agora Édipo. Esperando a oportunidade de findar os presságios dos quais não podia fugir.
Eu caminhei por toda a sala e, parado diante de um dos retratos de meu pai, conclui que era errado permitir que ele me fizesse sombra. Ele estava morto, sempre esteve. E era covardia minha permitir que ele roubasse-me  a mulher que eu ansiava ter. Eu ignorei seus olhos perseguidores e então me ative ao único retrato onde meu rosto se confundia com a multidão de “Pavéis”.
Era uma foto do natal anterior. Anne estava ali, sentada à minha direita, e segurava a minha mão com a ternura materna que me depositara nos últimos meses. Eu então compreendi porque apesar de todas as minhas investidas, Anne jamais me havia visto como homem, pois, quando eu me assumira filho de Pavel, em sua mente desvairada, passara a ser também filho seu. O filho que o romance inexistente deles nunca permitiu que viesse a existir. Eu novamente ri de minha situação, e diante da afronta que eu senti ao deparar-me com a imagem de meu pai,decidi que seria ali, no dia dele, que eu tomaria o seu lugar.

Embora minha paixão me perseguisse há sôfregos cinco meses, eu nunca havia entrado no quarto de minha rainha até aquela noite angustiante. Eu sempre havia limitado meu caminho até a porta, onde por inúmeras noites eu há tinha contemplado repousar entre as brumas de sua tristeza. Mas naquela noite quando a avistei ainda desperta, murmurando preces de retorno que jamais seriam atendidas, meu próprio coração não conteve meus passos.
Estava diante dela quando minha Jocasta, ainda com seu terço em mãos, ergueu-me os olhos e com a voz emocionada, disse:
- Eu pensei que jamais voltaria pra casa.
Por um instante, minha mente recobrada de sensatez soube que não era a mim que ela queria, mas novamente me vi impotente diante do meu desejo, quando ela saltou-me nos braços e seus lábios tocaram os meus. Eles eram frios e repletos de angústia, mas bastou senti-los para que toda cautela que ainda me continha fosse esquecida.
Eu entreguei-me ao meu destino. Não como quem se entrega ao carrasco, mas como as virgens que se entregavam aos deuses na certeza de que nasceram fadadas aquilo. Eu entreguei-me ao meu pecado com a voracidade de um animal feroz soltando urros abafados pelo pescoço esguio que meus lábios buscavam em insistente desespero.Meus dedos trêmulos pressionaram-na contra o meu corpo por medo de que ela escapasse por entre eles, enquanto as unhas dela se encravavam em minha pele que ardia em febre tomada pelo abundando suor que ensopava os lençóis. Eu sabia que toda aquela febre era uma indicação de que meu caminho estava agora traçado rumo ao inferno. Durante toda noite, o homem que havia em mim perdeu-se, tornando-me o animal que em mim dormia. Eu era agora o parricida, o usurpador e ao deflorar minha rainha, finalmente havia me tornado o rei. Estava cumprida a profecia.




ÉDIPO, O CONDENADO


Ao despertar do novo dia dei-me conta de que havia cumprido minha desgraçada sina, mas vendo-a ainda em meus braços não contive o sorriso que se aflorava em meu rosto. Eu sorria vislumbrando a possibilidade de toda minha saga edipiana ser uma mera coincidência e de não ser tão vil o destino a mim reservado.
Meu vislumbre fora interrompido pelo movimento dela aninhando-se em meus braços e meu peito encheu-se de gozo quando ao olhar-me de soslaio, ela sorriu.
- Bom Dia!  - Anne me disse com toda naturalidade, enquanto sentava-se na cama e vestia o penhoar de seda vermelha, assumindo sua postura de rainha.- Faz frio. – ela comentou se aproximando da janela, enquanto esfregava os braços insistentemente. – Eu te espero na mesa para o chá.
Antes de abandonar-me, Anne ainda comentou uma ou outra amenidade as quais pouco dei atenção, e então saiu pela porta. Bastou a porta fechar para que meu coração saltasse à garganta e encarando minha imagem desnuda no espelho eu me deparasse com as fatídicas marcas do fim de uma profecia. Meu coração até então atormentado pelo torpor e angústia de minha alma condenada suspirou aliviado por ter chegado ao fim sua saga. E convenceu-se de que a fatalidade destinada a Édipo ficara em Édipo, e não mais me pertencia.Eu era agora Scott.

Quando cheguei à sacada, Anne estava sentada à mesa com um semblante sereno e a fumaça do chá fumegando em seu rosto. Permanecia com a beleza sobre-humana de uma rainha, mas não mais me parecia a criatura tristonha que eu havia conhecido. Somente quando ela ergueu-me seu olhar vago, dei-me conta do quão cego eu estava.
- Como está o chá? – eu questionei, buscando fugir das fúrias que murmuravam aos meus ouvidos que aquela era a minha condenação.
- Amargo. – Anne me respondeu fria. – Tão amargo quanto a vida sem Pavel.
Naquele instante eu soube que sempre seria eu um condenado.  Um eremita cego que destinara o próprio coração a vagar na fuga do próprio destino. Na fuga de um amor que não era meu.
- Em nome do teu pai, espero que Deus possa nos perdoar. – ela afirmou pesarosa, enquanto a vida se esvaía dos seus olhos uma última vez.
Eu nada disse. Respirei fundo decidido a não mais fugir. E sentando-me diante dela, cego de amor que era, naquele instante escolhi viver toda a vida desgraçada que estava por vir.
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Ademar Ribeiro

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MensagemAssunto: Re: Em Nome do Pai: O Relato de um Édipo Tardio.   Ter Ago 12, 2014 9:56 pm

Bravo! Uma recontagem primorosa. Em tempos atuais, tais atitudes se tornam abomináveis, mas o amor ali presente não era mais fraternal e sim pueril. Parabéns!

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Espero que leia os outros textos e deixe sua impressão. Te espero mês que vem. Sem mais!
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Tammy Marinho

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MensagemAssunto: Re: Em Nome do Pai: O Relato de um Édipo Tardio.   Ter Ago 12, 2014 10:57 pm

Ademar Ribeiro escreveu:
Bravo! Uma recontagem primorosa. Em tempos atuais, tais atitudes se tornam abomináveis, mas o amor ali presente não era mais fraternal e sim pueril. Parabéns!

Ah... Já comentei o quanto eu fiquei contente.
O quanto vossa expectativa arrancou de mim todo esforço que o pouco tempo que tenho me permite dar.

Obrigada, mesmo...  Very Happy 
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Adriano Griot

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MensagemAssunto: Re: Em Nome do Pai: O Relato de um Édipo Tardio.   Qua Ago 13, 2014 8:28 am

O amor trágico,talvez o único verdadeiramente literário,é forte, impactante causa nos personagens e leitores uma gama de reações.Seu Édipo mostra bem isso ele sabe de sua condição trágica e assume-a.Belo conto.
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Indy J

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MensagemAssunto: Re: Em Nome do Pai: O Relato de um Édipo Tardio.   Qua Ago 13, 2014 12:50 pm

Oi!
Achei legal, tem uma versão bacana e personagens poucos mas bem construídos.
No entanto, achei que faltou história. Vários elementos mas narrativa insuficiente, manja? Além, meio solene demais.

Continua!

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Por que escrever? Porque escrever.
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Tammy Marinho

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MensagemAssunto: Re: Em Nome do Pai: O Relato de um Édipo Tardio.   Qua Ago 13, 2014 11:10 pm

Indy J escreveu:
Oi!
Achei legal, tem uma versão bacana e personagens poucos mas bem construídos.
No entanto, achei que faltou história. Vários elementos mas narrativa insuficiente, manja? Além, meio solene demais.

Continua!

Olha continuar é uma hipótese mesmo.
Na verdade o casal dessa releitura provém de uma série de outras histórias minhas.
O trajeto dela é muito longo, tem inclusive a história dela com o falecido pai do "Édipo" é ainda mais trágica.
Mas isso não é assunto pra cá...

Obrigada, pelo conselho mais uma vez.
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Tammy Marinho

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MensagemAssunto: Re: Em Nome do Pai: O Relato de um Édipo Tardio.   Qua Ago 13, 2014 11:15 pm

Adriano Griot escreveu:
O amor trágico,talvez o único verdadeiramente literário,é forte, impactante causa nos personagens e leitores uma gama de reações.Seu Édipo mostra bem isso ele sabe de sua condição trágica e assume-a.Belo conto.

Tenho igual opinião sobre o amor trágico.
Nada contra os outros amores, mas a tragédia me ganha, me leva e me faz não querer voltar.
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Caio Biolcatti
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MensagemAssunto: Re: Em Nome do Pai: O Relato de um Édipo Tardio.   Ter Ago 19, 2014 5:44 pm

Tammy, minha filha, o que é isso?! :O Não tenho nem um nome para descrever... Não foi uma paráfrase, foi uma intertextualidade absurdamente criativa e original que nem parece ser intertextualidade UIAHAEUIHUIEAHUIEAHUIEA Agora vamos lá: Eu achei que o texto foi curto sem ser efêmero, a redução de palavras fez parte da prosa poética que você criou. Não senti nenhuma lacuna histórica nem nada do tipo, embora talvez meu palpite seja suspeito porque eu já conheço o mito de Édipo. Parabéns!! *-*

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Tammy Marinho

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MensagemAssunto: Re: Em Nome do Pai: O Relato de um Édipo Tardio.   Ter Ago 19, 2014 10:20 pm

Caio Biolcatti escreveu:
Tammy, minha filha, o que é isso?! :O Não tenho nem um nome para descrever... Não foi uma paráfrase, foi uma intertextualidade absurdamente criativa e original que nem parece ser intertextualidade UIAHAEUIHUIEAHUIEAHUIEA Agora vamos lá: Eu achei que o texto foi curto sem ser efêmero, a redução de palavras fez parte da prosa poética que você criou. Não senti nenhuma lacuna histórica nem nada do tipo, embora talvez meu palpite seja suspeito porque eu já conheço o mito de Édipo. Parabéns!! *-*

Caio, meu pequeno prodígio. Smile
O que dizer quando recebe-se um elogio desses de um infante talentoso como você?!
Espero que possamos nos ajudar, nos inspirar e crescer juntos nesse árduo caminho que é o sonho de viver de escrita no Brasil
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Queirós

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MensagemAssunto: Re: Em Nome do Pai: O Relato de um Édipo Tardio.   Qua Ago 27, 2014 12:18 pm

Na original tragédia do Édipo, há este desconhecer que ronda gravemente o fim melancólico que advém.

Édipo sabe de seu destino, mas dele tenta desesperadamente se esconder. Mata seu pai sem o saber e casa com sua mãe sem que disso soubesse. Quando se percebe no destino de que fugira, este nosso herói mata a própria progenitora e de si retira seus próprios olhos, numa destinada punição aos seus delitos.

Scott Buonanotte, que se reconhece nos adornos de Édipo, sabe, entretanto, que aquela é sua mãe, não obstante, ama-a assim mesmo. Eu não posso fugir da ideia de que você conhece alguma coisa de Sigmund Freud, e eu sinto isto com a grave força neste trecho de sua narrativa:

"Na verdade eu me sentia péssimo com tudo aquilo. Eu nunca havia aprendido a amar aquele homem. Ele era meu pai. Mas como eu disse, outrora há muito, ele estava morto dentro de mim. Porém, o amor que eu nutria por ela impedia-me de confessar minha indiferença."

Este amor que ele nutri pela própria mãe e o ódio que desperta para com o pai, ainda que falecido. Lembra-me das fases da libido segundo Sigmund Freud.

Enfim, não há como ajudá-la em nada. Na forma que eu entendo seu texto – com estes pouquíssimos conhecimentos que tenho de psicanálise – está muito bem estruturado, muito bem narrado.
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Tammy Marinho

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MensagemAssunto: Re: Em Nome do Pai: O Relato de um Édipo Tardio.   Qua Ago 27, 2014 12:28 pm

Queirós escreveu:
Na original tragédia do Édipo, há este desconhecer que ronda gravemente o fim melancólico que advém.

Édipo sabe de seu destino, mas dele tenta desesperadamente se esconder. Mata seu pai sem o saber e casa com sua mãe sem que disso soubesse. Quando se percebe no destino de que fugira, este nosso herói mata a própria progenitora e de si retira seus próprios olhos, numa destinada punição aos seus delitos.

Scott Buonanotte, que se reconhece nos adornos de Édipo, sabe, entretanto, que aquela é sua mãe, não obstante, ama-a assim mesmo. Eu não posso fugir da ideia de que você conhece alguma coisa de Sigmund Freud, e eu sinto isto com a grave força neste trecho de sua narrativa:

"Na verdade eu me sentia péssimo com tudo aquilo. Eu nunca havia aprendido a amar aquele homem. Ele era meu pai. Mas como eu disse, outrora há muito, ele estava morto dentro de mim. Porém, o amor que eu nutria por ela impedia-me de confessar minha indiferença."

Este amor que ele nutri pela própria mãe e o ódio que desperta para com o pai, ainda que falecido. Lembra-me das fases da libido segundo Sigmund Freud.

Enfim, não há como ajudá-la em nada. Na forma que eu entendo seu texto – com estes pouquíssimos conhecimentos que tenho de psicanálise – está muito bem estruturado, muito bem narrado.

Poxa... Foi exatamente no ponto, temos aí forte influência de Psicanálise, em especial, do Complexo de Édipo.
Como eu sempre enfatizo a Psicologia é uma ajuda e tanto no processo de escrita.

Não me sinto desgostosa com vosso comentário, entretanto, uma coisa preocupou-me.
Tu citas que Scott ama a mãe. reconhecendo-a como tal.
Mas se observai o trecho "Sentada ao seu lado a mulher que me parira, Marcelina, parecia temer nosso encontro como se previsse a desgraça a qual eu me destinava. " perceberá que Anne não é mãe biológica de nosso protagonista, sendo essa Marcelina. Por isso, me preocupa que tenha associado isso diretamente a ela.
Pois, na mente de Scott ele apenas associa um matriarcado a Anne devido a relação que ela tinha com seu falecido pai.

Obrigada!
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Tammy Marinho

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MensagemAssunto: Re: Em Nome do Pai: O Relato de um Édipo Tardio.   Qua Ago 27, 2014 12:29 pm

Hmm... e Édipo não mata Jocasta, esta que termina por suicidar-se. Wink
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Queirós

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MensagemAssunto: Re: Em Nome do Pai: O Relato de um Édipo Tardio.   Qua Ago 27, 2014 12:43 pm

Tammy Marinho escreveu:
Queirós escreveu:
Na original tragédia do Édipo, há este desconhecer que ronda gravemente o fim melancólico que advém.

Édipo sabe de seu destino, mas dele tenta desesperadamente se esconder. Mata seu pai sem o saber e casa com sua mãe sem que disso soubesse. Quando se percebe no destino de que fugira, este nosso herói mata a própria progenitora e de si retira seus próprios olhos, numa destinada punição aos seus delitos.

Scott Buonanotte, que se reconhece nos adornos de Édipo, sabe, entretanto, que aquela é sua mãe, não obstante, ama-a assim mesmo. Eu não posso fugir da ideia de que você conhece alguma coisa de Sigmund Freud, e eu sinto isto com a grave força neste trecho de sua narrativa:

"Na verdade eu me sentia péssimo com tudo aquilo. Eu nunca havia aprendido a amar aquele homem. Ele era meu pai. Mas como eu disse, outrora há muito, ele estava morto dentro de mim. Porém, o amor que eu nutria por ela impedia-me de confessar minha indiferença."

Este amor que ele nutri pela própria mãe e o ódio que desperta para com o pai, ainda que falecido. Lembra-me das fases da libido segundo Sigmund Freud.

Enfim, não há como ajudá-la em nada. Na forma que eu entendo seu texto – com estes pouquíssimos conhecimentos que tenho de psicanálise – está muito bem estruturado, muito bem narrado.

Poxa... Foi exatamente no ponto, temos aí forte influência de Psicanálise, em especial, do Complexo de Édipo.
Como eu sempre enfatizo a Psicologia é uma ajuda e tanto no processo de escrita.

Não me sinto desgostosa com vosso comentário, entretanto, uma coisa preocupou-me.
Tu citas que Scott ama a mãe. reconhecendo-a como tal.
Mas se observai o trecho "Sentada ao seu lado a mulher que me parira, Marcelina, parecia temer nosso encontro como se previsse a desgraça a qual eu me destinava. " perceberá que Anne não é mãe biológica de nosso protagonista, sendo essa Marcelina. Por isso, me preocupa que tenha associado isso diretamente a ela.
Pois, na mente de Scott ele apenas associa um matriarcado a Anne devido a relação que ela tinha com seu falecido pai.

Obrigada!

Oh! Deixe-me retratar meu comentário: eu realmente percebi isso, tanto que você nos mostra claramente tal coisa nesta parte da narrativa:

"Eu então compreendi porque apesar de todas as minhas investidas, Anne jamais me havia visto como homem, pois, quando eu me assumira filho de Pavel, em sua mente desvairada, passara a ser também filho seu. O filho que o romance inexistente deles nunca permitiu que viesse a existir."

É que, em partes eu vi tão acentuado o sentimento de culpa! Eu vi com alguma clareza estes comportamentos pelos três ensaios sobre a teoria da sexualidade de Freud, que acabei por comentar como se lhe fosse a mãe biológica. Mas por Deus que não passou de um engano! Coisas que acontece quando você termina um texto e vai comentá-lo com base em outros conhecimentos. Por isso, já ressalvo aqui também o suicídio que tratei por assassinato. Novamente, alguns conhecimentos seriam melhores usados se fossem pesquisados antes, porque a memória nos é uma faculdade limitada. Édipo não mata Jocasta, ela tem uma morte voluntária.
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Queirós

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MensagemAssunto: Re: Em Nome do Pai: O Relato de um Édipo Tardio.   Qua Ago 27, 2014 12:49 pm

Tammy, não há um único erro lógico no seu texto. Se tivesse, esteja certa de que eu o apontaria. Ou se o tem, está fora de meu escopo. Por isso meu comentário não lhe é útil. O seu texto está claro!
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Tammy Marinho

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MensagemAssunto: Re: Em Nome do Pai: O Relato de um Édipo Tardio.   Qua Ago 27, 2014 12:53 pm

Queirós escreveu:
Tammy Marinho escreveu:
Queirós escreveu:
Na original tragédia do Édipo, há este desconhecer que ronda gravemente o fim melancólico que advém.

Édipo sabe de seu destino, mas dele tenta desesperadamente se esconder. Mata seu pai sem o saber e casa com sua mãe sem que disso soubesse. Quando se percebe no destino de que fugira, este nosso herói mata a própria progenitora e de si retira seus próprios olhos, numa destinada punição aos seus delitos.

Scott Buonanotte, que se reconhece nos adornos de Édipo, sabe, entretanto, que aquela é sua mãe, não obstante, ama-a assim mesmo. Eu não posso fugir da ideia de que você conhece alguma coisa de Sigmund Freud, e eu sinto isto com a grave força neste trecho de sua narrativa:

"Na verdade eu me sentia péssimo com tudo aquilo. Eu nunca havia aprendido a amar aquele homem. Ele era meu pai. Mas como eu disse, outrora há muito, ele estava morto dentro de mim. Porém, o amor que eu nutria por ela impedia-me de confessar minha indiferença."

Este amor que ele nutri pela própria mãe e o ódio que desperta para com o pai, ainda que falecido. Lembra-me das fases da libido segundo Sigmund Freud.

Enfim, não há como ajudá-la em nada. Na forma que eu entendo seu texto – com estes pouquíssimos conhecimentos que tenho de psicanálise – está muito bem estruturado, muito bem narrado.

Poxa... Foi exatamente no ponto, temos aí forte influência de Psicanálise, em especial, do Complexo de Édipo.
Como eu sempre enfatizo a Psicologia é uma ajuda e tanto no processo de escrita.

Não me sinto desgostosa com vosso comentário, entretanto, uma coisa preocupou-me.
Tu citas que Scott ama a mãe. reconhecendo-a como tal.
Mas se observai o trecho "Sentada ao seu lado a mulher que me parira, Marcelina, parecia temer nosso encontro como se previsse a desgraça a qual eu me destinava. " perceberá que Anne não é mãe biológica de nosso protagonista, sendo essa Marcelina. Por isso, me preocupa que tenha associado isso diretamente a ela.
Pois, na mente de Scott ele apenas associa um matriarcado a Anne devido a relação que ela tinha com seu falecido pai.

Obrigada!

Oh! Deixe-me retratar meu comentário: eu realmente percebi isso, tanto que você nos mostra claramente tal coisa nesta parte da narrativa:

"Eu então compreendi porque apesar de todas as minhas investidas, Anne jamais me havia visto como homem, pois, quando eu me assumira filho de Pavel, em sua mente desvairada, passara a ser também filho seu. O filho que o romance inexistente deles nunca permitiu que viesse a existir."

É que, em partes eu vi tão acentuado o sentimento de culpa! Eu vi com alguma clareza estes comportamentos pelos três ensaios sobre a teoria da sexualidade de Freud, que acabei por comentar como se lhe fosse a mãe biológica. Mas por Deus que não passou de um engano! Coisas que acontece quando você termina um texto e vai comentá-lo com base em outros conhecimentos. Por isso, já ressalvo aqui também o suicídio que tratei por assassinato. Novamente, alguns conhecimentos seriam melhores usados se fossem pesquisados antes, porque a memória nos é uma faculdade limitada. Édipo não mata Jocasta, ela tem uma morte voluntária.

Teu comentário agora deixou-me gostosa de um todo.
Fico realmente contente que o sentimento de culpa tenha sido transmitido com tamanha intensidade Smile
Sinto-me felicitada e orgulhosa de vossos comentários.
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