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 O Mascote da Copa

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Carol Rodriguez

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MensagemAssunto: O Mascote da Copa   Qua Jun 25, 2014 8:06 pm

Fuleco. Pelo menos era disso que o chamavam aqui.

O garotinho apertou o boneco de pelúcia contra o peito enquanto se remexia na cama, num pesadelo profundo. O menininho gemia a cada susto que levava, preso dentro de si mesmo, enquanto a face amarelada do tatu de pelúcia era iluminada pela luz da lua cheia que entrava em tiras por trás da cortina. O garotinho agora mexia as pernas, como se estivesse correndo, e chutava o edredon azul do Mickey para o chão. O travesseiro logo se juntou a este no carpete de madeira. A única coisa que continuava ao seu lado era o boneco da Copa das Copas: a copa brasileira. Ele não gritava, não emitia som algum que pudesse ser ouvido e identificado por seus pais ou sua irmã que dormia no quarto ao lado. Sua voz estava presa e raspava em sua garganta, saindo como um gemido fraco. O pesadelo de repente ficava embaçado com a aproximação da manhã e então o pequeno Arthur podia finalmente dormir em paz.

Na manhã seguinte o garotinho sentia dores. O seu mau-humor era característico de uma péssima noite, mas lá estava ele, arrumado, às oito da manhã, sentando-se na mesa do café. Preso entre seus dedos estava seu novo melhor amigo e bichinho favorito, o mascote da Copa. Fuleco.

- Será que você está ficando doente, carinha? - Seu pai colocou a mão em sua testa, preocupado. Nada de febre. Pedro segurou o queixo do filho caçula e observou seus olhos. As olheiras eram profundas demais para uma criança de sete anos. – Arthur, você dormiu ou ficou no videogame de novo?? - Ele questionou enquanto servia-se café.

Arthur ajeitou-se na cadeira tentando pegar seu copo com leite com a mão direita. Alcançou o objeto de vidro e virou por completo em cima de si, sujando o uniforme branco e o chão lustroso.

- ARTHUR!! Mão furada! Não consegue fazer nada direito, garoto desastrado! Jana, trás um pano quando você vir! – Bradou Pedro, fazendo com o menino se encolhesse na cadeira. Mas ele era pequeno demais para alcançar a mesa: Arthur tinha sete anos com altura de uma criança de cinco; rechonchudo, tinha os olhos castanhos da mãe enquanto seus cachos negros eram de sua avó. O nariz, sem dúvida era de seu pai. As mãos-furadas eram de seu tio Tonho, eles diziam. Tonho, o que acidentalmente tropeçou com uma tesoura no auge de sua adolescência.

- O que ele aprontou? - Disse a voz esganiçada de Janaína, sua mãe, que se aproximava com um pano. – Molhou toda minha toalha! E seu uniforme, então¿ Acha o que, que sou sua empregada? - Ela o tirou da cadeira pelo braço de uma maneira nada delicada e pegou Fuleco da mãos do filho. – É esse boneco! Agora não faz nada se não tiver segurando ele! Maldito tatu! – Janaína se inclinava para começar a limpar a bagunça.

- Nãaaao, ele vai ficar irritado! – Choramingou Arthur enquanto recuperava seu boneco que agora estava tão cheio de leite como ele.

- Você que ensinou ele a falar com bonecos! – Resmungou Pedro.

- Ah, agora a culpa é minha? O filho também é teu!

Arthur se encolheu no vão atrás da porta de entrada e abraçou o boneco, passando sua mão melecada de leite em sua cabeça como se lhe fizesse carinho.

- Shiiu, a culpa não é sua, Fú. – E lá ficou o resto do dia, atrás da porta, quase como se estivesse de castigo. E estava. Acabou não indo para a escola e como punição ajudou sua mãe a limpar a casa. Mas sempre com o boneco engalfinhado em uma de suas mãos.

Ao cair da noite, Arthur fora pra cama sem sobremesa e foi obrigado a ouvir sua irmã Alice debochar dele por sua malcriação. “Mão-furada! Destruidor! Volta pra mamadeira!”, ela dizia quase fazendo-o chorar.
Pouco antes de ir para cama, estava agachado atrás da porta do seu quarto fingindo que Fuleco era o artilheiro da Copa em vez de Neymar. Porque futebol com os bonecos era a sua coisa favorita. Uma pena não ter bola para o tamanho deles. Ora, mas então porque não pegamos uma mais legal? Pensou com seus botões. Mas a voz dentro de sua cabeça não se parecia com a sua. “Vamos lá, vamos chamar seus pais e sua irmã pra brincar também! Aí eles vão entender que você não é um bebezão mão-furada.

- Mas que tipo de bola, Fú? Você tem alguma ideia¿ - Perguntou para o boneco esperando que a voz em sua cabeça respondesse. Mas ao invés disso, Fuleco lhe mostrou uma imagem.

Eram três da manhã quando Arthur caminhava sorrateiramente até a cozinha e tirava a faca de churrasco de seu pai da gaveta. Ela brilhava, refletindo sombras e as cores neutralizadas de Fuleco em sua outra mão. Estava óbvio.
Seus pais sempre tomavam chá antes de irem para cama. O menino sabia que os remédios contra stress de sua mãe proporcionavam uma ótima noite de sono. Também sabia onde ela os guardava e quanto tomava por noite. Arthur tinha TOC de contar até treze qualquer coisa que visse: goles de água, degraus e etc. Seus de outras pessoas. Sua mãe tomava três comprimidos e dez goles de água toda noite. Seis para cada deviam bastar.

Agora ele entrava no quarto de sua irmã que roncava. Alice não iria lhe causar tantos problemas, ele imaginava. Se ela gritasse os pais não ouviriam: estavam dopados.

- Uma bola nova! – Ele cantarolava pela casa como um mantra, repetindo treze vezes a mesma frase. Então suspirava e recomeçava a contagem. – Uma bola nova.  Uma bola nova. Uma bola nova. – O grito de sua irmã ao vê-lo com a faca lhe irritou. Agora teria que recomeçar a contar.

Um.
- Uma bola nova.

Dois.
- Uma bola nova.

E assim por diante.

Ao chegar à décima terceira repetição, saltou sobre a cama de sua irmã e sentou-se na barriga dela que acordava assustada. E então, sem mais delongas passeou com a faca em sua jugular e em seu pescoço, cortando sua cabeça com extrema dificuldade. Mas tudo por uma bola nova.

Fuleco. Pelo menos era disso que o chamavam aqui.
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Patricia Souza
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MensagemAssunto: Re: O Mascote da Copa   Qua Jun 25, 2014 8:29 pm

O "mochila de criança"!! Socorro!! D;
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Ademar Ribeiro

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MensagemAssunto: Re: O Mascote da Copa   Qui Jun 26, 2014 2:59 pm

Narrativa ótima, a engrenagem dos personagem soa tão familiar que até parece o povo la da casa de minha mãe, até as birras são iguais. Mas como você mesmo salientou o detalhe da morte, o ápice do terror foi rápido, apesar que quando o fuleco "conversa" com o garoto dá uma deixa de Chukcy "oi, meu nome é Chuck, você quer brincar comigo?"... isso na minha infância, foi uma das coisas que me fez odiar bonecos de pano. No geral está ótimo e nem usou o tema clichê. Parabéns!


Última edição por Ademar Ribeiro em Sex Jun 27, 2014 6:42 pm, editado 1 vez(es)
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Indy J

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MensagemAssunto: Re: O Mascote da Copa   Sex Jun 27, 2014 6:32 pm

Achei divertido e original (mais ou menos), porém muito depressa. Achei muito de repente o destrato dos pais com o Arthur, e um tanto gratuita a revolta dele, saca? Dá pra perceber que é porque o boneco mandou etc. etc. mas aquela fagulha que falta pra ele ficar mesmo ensandecido, pra mim, não foi. Não senti.
Mas de qualquer forma, interessante a história, sim!, e gostei da forma geral da narrativa.
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João Marcos Oliveira

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MensagemAssunto: Re: O Mascote da Copa   Sex Jun 27, 2014 8:43 pm

Eu achei meio engraçado, hahaha. Não sei se existe creepypastas do Fuleco, mas um Fuleco do mal é meio bizarro pra mim, hahaha. Foi difícil entrar no clima, mas eu achei um bom conto. O fato dele contar as coisas foi meio avulso, assim como o pesadelo inicial e o incidente com o leite. Eu entendi que eram peripécias do boneco, mas foram coisas aleatórias com o fim. Eu gostei muito do fim. Se tivesse uma cena dele jogando futebol com a cabeça da irmã, acho que seria mais medonho (tomando cuidado para não soar cômico).
Eu acho o uso de duas interrogações/exclamações muito desnecessário, e não entendi essa invertida em "então¿".
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Carol Rodriguez

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MensagemAssunto: Re: O Mascote da Copa   Seg Jun 30, 2014 6:43 pm

A parte invertida é que meu Word não reconhece pontos de interrogação.
D:
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Estela Goldenstein

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MensagemAssunto: Re: O Mascote da Copa   Seg Jun 30, 2014 10:12 pm

Encontrei nesse conto uma extrema contradição, a linguagem q vc usa me parece muito sóbria, centrada enquanto o enredo eh uma loucura e o conjunto da obra ficou espetacular! Parabéns. Eu queria saber se vc costuma escrever histórias de terror?
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MensagemAssunto: Re: O Mascote da Copa   

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